A HUMA PENDENClA QUE TEVE O MULATO QUIRINGA COM HUM MOURO NA CADEYA, PELA QUAL F...

By Gregório de Matos Guerra

Vendo tal desenvoltura,

como vai nesta cadeia,

quis também a minha veia

fazer uma travessura:

inda a memória me dura

dos mulatetes maraus,

quando entre desares maus

o pobre do nosso Mouro,

indo jogar prata, e ouro,

saiu-lhe o trunfo de paus.

Entre bem e mal fadado

foi o Mouro em sua lei

batizado por um Rei,

por um Mulato crismado:

ele ficou estirado,

vendo tanta matinada

de uma pendência causada;

e eu quase fiquei absorto,

de que vendo um Mouro morto

ninguém lhe desse a lançada.

Com sair-lhe o ano mau,

diz ele, que outro tal venha,

pois será ano de lenha

um ano de tanto pau:

o Mouro é mui vaganau,

e é tal o descoco seu,

que mal da terra se ergueu,

tão desaforado está,

que diz, que se lhe não dá

do muito, de se lhe deu.

O Quiringa valentão

por unir esta pendência,

se não ganhou indulgência,

teve um ano de perdão:

pôs-se em pé o velhacão

recebendo as alabanças,

e eu entre tantas mudanças

a guitarra lhe cantei:

“servio na moxinga a El-Rei

un Quiringa con dos lanças“.