A HUMA PENDENClA QUE TEVE O MULATO QUIRINGA COM HUM MOURO NA CADEYA, PELA QUAL F...
Vendo tal desenvoltura,
como vai nesta cadeia,
quis também a minha veia
fazer uma travessura:
inda a memória me dura
dos mulatetes maraus,
quando entre desares maus
o pobre do nosso Mouro,
indo jogar prata, e ouro,
saiu-lhe o trunfo de paus.
Entre bem e mal fadado
foi o Mouro em sua lei
batizado por um Rei,
por um Mulato crismado:
ele ficou estirado,
vendo tanta matinada
de uma pendência causada;
e eu quase fiquei absorto,
de que vendo um Mouro morto
ninguém lhe desse a lançada.
Com sair-lhe o ano mau,
diz ele, que outro tal venha,
pois será ano de lenha
um ano de tanto pau:
o Mouro é mui vaganau,
e é tal o descoco seu,
que mal da terra se ergueu,
tão desaforado está,
que diz, que se lhe não dá
do muito, de se lhe deu.
O Quiringa valentão
por unir esta pendência,
se não ganhou indulgência,
teve um ano de perdão:
pôs-se em pé o velhacão
recebendo as alabanças,
e eu entre tantas mudanças
a guitarra lhe cantei:
“servio na moxinga a El-Rei
un Quiringa con dos lanças“.