A HUMAS CANTIGAS, QUE COSTUMAVAM CANTAR OS CHULOS NAQUELLE TEMPO:'BANGUÉ, QUE SE...

By Gregório de Matos Guerra

Meu Deus, que será de mim?

Banguê, que será de ti?

Se o descuido do futuro,

e a lembrança do presente

é em mim tão continente,

como do mundo murmuro?

Será, porque não procuro

temer do princípio o fim?

Será, porque sigo assim

cegamente o meu pecado?

mas se me vir condenado,

Meu Deus, que será de mim?

Se não segues meus enganos,

e meus deleites não segues,

temo, que nunca sossegues

no florido dos teus anos:

vê, como vivem ufanos

os descuidados de si;

canta, baila, folga, e ri,

pois os que não se alegraram.

dous infernos militaram.

Banguê, que será de ti?

Se para o céu me criastes,

Meu Deus, à imagem vossa,

como é possível, que possa

fugir-vos, pois me buscastes:

e se para mim tratastes

o melhor remédio, e fim,

eu como ingrato Caim

deste bem tão esquecido

tenho-vos tão ofendido:

Meu Deus, que será de mim?

Todo o cantar alivia,

e todo o folgar alegra

toda a branca, parda e negra

tem sua hora de folia:

só tu na melancolia

tens alívio? canta aqui,

e torna a cantar ali,

que desse modo o praticam,

os que alegres pronosticam,

Banguê, que será de ti?

Eu para vós ofensor,

vós para mim ofendido?

eu já de vós esquecido,

e vós de mim redentor?

ai como sinto, Senhor,

de tão mau princípio o fim:

se não me valeis assim,

como àquele, que na cruz

feristes com vossa luz,

Meu Deus, que será de mim?

Como assim na flor dos anos

colhes o fruto amargoso?

não vês, que todo o penoso

é causa de muitos danos?

deixa, deixa desenganos,

segue os deleites, que aqui

te ofereço: porque ali

os mais, que cantando vão,

dizem na triste canção,

Banguê que será de ti?

Quem vos ofendeu, Senhor?

Uma criatura vossa?

como é possível, que eu possa

ofender meu Criador?

triste de mim pecador,

se a glória, que dais sem fim

perdida num serafim

se perder em mim também!

Se eu perder tamanho bem,

Meu Deus, que será de mim?

Se a tua culpa merece

do teu Deus a esquivança

folga no mundo, e descansa,

que o arrepender aborrece:

se o pecado te entristece,

como já em outros vi,

te prometo desde aqui,

que os mais da tua facção,

e tu no inferno dirão,

Banguê, que será de ti?