A imprensa

By João da Cruz e Sousa

A lâmpada gigantesca

Das glórias do porvir,

Turíbulo majestoso

No mundo a irradir,

É a imprensa tesouro

E c’roa de verde louro

A fronte do escritor!

E centelha sublimada

Que vem do céu arrojada

A treva dando fulgor!

— O homem nasceu pequeno

Mas com as letras cresceu

Foi como o vulto de Rodes

Que lá tão alto s’ergueu!

Foi preciso — estudando

Co’a própria ideia lutando

Mergulhar-se na luz!

Foi preciso ter glória,

Brilhante, leda memória,

Colher renomes a flux!

Foi preciso mil lutas

Mil labores insanos

P’ra descobrir nesses mundos

Da diva luz os arcanos!

Foi preciso que um bravo

Não mostrando-se ignavo

Mas inspirado por Deus!

A pedra bruta talhasse

E a luz então derramasse

Qual seiva santa dos Céus!

Foi preciso os séculos

Ainda um pouco nas trevas

Erguessem as frontes bem alto

E devastassem mil selvas!

Foi preciso que o mundo

Sentisse abalo profundo

Ao desvendar— se o saber!

Foi preciso que os entes

Ou se erguessem potentes

Ou tombassem a morrer!

Mas não! — o homem ergueu-se,

Quase, quase com Deus

Tirou a fronte da treva

E só pregou-a nos Céus!

Viu o futuro de louros

E quis colher os tesouros

Que dão renome sem fim!

Sonhou, sonhou co’a vitória

E o gládio teve da glória

Qual o grão Bernardim!

O homem, gênio sublime,

Caminha, com seu bordão

Até achar o brilhante

A luz, a luz da razão!

Tropeça um pouco, se tomba

Ergue-se, voa qual pomba

E indo a luz descobrir,

Busca ouvir no infinito

Do eco ao longe este grito:

Trabalha para o porvir!

Quando os povos modernos,

Sentirem no coração

Uma ardente centelha

Que caia lá d’amplidão!

Deixarão esses vícios,

Insanos, negros, fictícios

Que dão só noite ao viver!

E irão curvados a ela

Depor-lhe verde capela

Farão então por crescer!

Camões, Milton, Abreu,

Já da vida sem lampas,

Erguei-vos crânios altivos

Espedaçai essas campas!

Dizei — se o homem caminha

Se na treva definha

A quem se deve louvar?!...

S’as letras seguem ovantes

Dizei ó nobres gigantes

A quem se ergue alcaçar?!!...

E Guttenberg esse herói,

Essa vergôntea dinal,

Que co’escopro na destra!

Foi das letras fanal!

Ao descobrir a imprensa

Essa epopeia imensa

Para toda a nação,

Com glória ingente sonhava

Na luz por certo nadava

Já tinha os louros na mão!