A LANTERNA DE DIÓGENES

By José Joaquim Correia de Almeida

Diógenes, diz a história,

Quando o sol resplandecia,

Lanterna acesa trazia,

Procurando aquém, e além,

Um homem, homem de bem.

E malhava em ferro frio;

Pois a fazenda que busca,

Dia claro ou noite fusca

Dificilmente aparece

Inda que um prego acendesse.

Se nesses dourados tempos

Como cousa esquiva e rara

Homem de bem se catara,

Que será nos tempos de hoje

Em que a virtude nos foge?

Que será em nossas eras,

Em que o vício horrendo e feio,

Anda solto, anda sem freio,

Praticando excessos tais,

Que nunca houve outros iguais?

Premunido da lanterna,

Que Diógenes trazia,

Como ele outrora fazia,

Eu procuro aquém, além,

Um homem, homem de bem.

Nas patranhas mitológicas,

Nessa impostura faceta,

Com seu ressaibo de peta,

De Jano é duplo o semblante,

Uma trás, outro adiante.

Na quadra do positivo,

Da verdade nua e crua,

Pela estrada, pela rua

A cada passo deparas

Sujeito de duas caras.

Uma para prometer,

A outra para cumprir,

Uma quando vem pedir,

A outra quando lhe rogo

A satisfação do — logo.

No grêmio da gente sã,

E na mais polida roda,

Está no rigor da moda,

No próprio ou negócio alheio

Da mentira o galanteio.

E vive a mil maravilhas

O mentiroso impudente:

Não há nada que não tente,

E se no mentir não cansa,

Quanto exige, tanto alcança.

Porque papalvos há sempre,

Sempre dispostos à pulha,

E sem matinada ou bulha,

Com balda de sabichões

Engolem carapetões.

— Palavra de Rei não volta-

Era adágio antigamente;

Mas na época presente

Vai d’avante para trás,

Como o caranguejo faz.

Ali não vês o magnate

A quem tributam respeito

E cortes ias a eito?

Em mui breve relatório

Eu te explico o meninório.

É rico, mas não herdou

De a um parente por morte;

Não consta tirasse sorte,

Nem descobrisse tesouro,

Ou nas minas veia de ouro.

De flexível consciência

Já tem hábito de usura,

E da humana criatura

No tráfego ou contrabando

Vai a fortuna aumentando.

E porque o mundo assim é,

E quem está dando as cartas.

E as barrigas menos fartas

Acreditam, mas em vão,

Que ele vai fabricar pão.

Porém — coitadas! — iludem-se,

Pois certamente o ricaço

É na utilidade escasso,

E quando ao favor se obriga,

Serve a riqueza de figa.

Já tens observado bem

Todos os traços do vulto

Daquele jurisconsulto?

Quando considera e pensa,

’Stá ponderando a sentença.

Não sei porém distinguir

Se é sacerdote de Astreia;

Pois, segundo minha ideia,

Também o mercador lança

Seus produtos na balança.

Naquele fidalgo gira

O sangue de Reis avós;

Sobre o peito se lhe pôs

Perto da Grã-Cruz da Rosa

De Comendas uma grosa.

Entretanto na taverna

Não lhe fiam dez tostões,

E em desar de seus brasões,

E a despeito das bravatas

Mandam-no plantar batatas.

Inventou-se na política

Certo palavrão de fuma,

Seja pro grama o u pro-trama,

Como quer que ele se tome,

Não se perca pelo nome.

Por índole do sistema

Há dous partidos na terra;

Enquanto um ateia a guerra,

O outro tece louvaminhas

Ao governo das papinhas.

Será convicção que os move,

Amor da Pátria que os guia

Na batalhada porfia?

Sê-lo-á, sê-lo-não-á,

Ou será, ou não será!

Em véspera de eleições

O candidato se empenha,

Oferecendo a resenha

De meditados projetos

Tão salutares quão retos.

Dos sufrágios espontâneos

Passado o momento crítico,

Procede como político;

As promessas não recorda,

E ao votante rói a corda.

Eis ali um fazendeiro

Símbolo da probidade!

Veio passear à cidade

A ver se tem crescimento

O preço do mantimento.

Inda não julga bastante

Dos comestíveis a falta,

E o farelo à espera de alta

Do paiol vai para o sol

E do sol para o paiol.

Se há carestia de víveres,

E a peso de ouro se come,

Quem terá culpa na fome,

Que despido e já sem capa

O mísero pobre rapa?

Vês o padre a folhear

O seboso breviário?

Está fazendo inventário

Das sobras que reservadas

Servem pra maior de espadas.

Se é pastor, não dá pastagem;

Se é pároco ou cura de almas,

Nem dos mártires as palmas,

Nem de espinhos a coroa

Lhe parecem cousa boa.

Não obstante, o povo crédulo

Intitula-o — —

E cheio de assombro e espanto

Chega a descobrir indícios

De penitência e cilícios.

Nem tudo que luz é ouro,

E assim Deus me dê saúde.

Como do padre a virtude,

Não sendo metal sem liga,

Tem muito que se lhe diga.

Se aplicando atentamente

Óculos, lanterna, e vista

Passei exata revista

Sem achar o que procuro,

A lanterna dependuro.

Mas não perdi meu trabalho;

Pois estudei as fraquezas

Das humanas naturezas,

E das conclusões, que tiro,

Este juízo profiro:

Presumir homem de bem

Tudo quanto veste calça,

Seria uma ideia falsa

Capaz de induzir ao erro

O espírito menos perro.