A LANTERNA DE DIÓGENES
Diógenes, diz a história,
Quando o sol resplandecia,
Lanterna acesa trazia,
Procurando aquém, e além,
Um homem, homem de bem.
E malhava em ferro frio;
Pois a fazenda que busca,
Dia claro ou noite fusca
Dificilmente aparece
Inda que um prego acendesse.
Se nesses dourados tempos
Como cousa esquiva e rara
Homem de bem se catara,
Que será nos tempos de hoje
Em que a virtude nos foge?
Que será em nossas eras,
Em que o vício horrendo e feio,
Anda solto, anda sem freio,
Praticando excessos tais,
Que nunca houve outros iguais?
Premunido da lanterna,
Que Diógenes trazia,
Como ele outrora fazia,
Eu procuro aquém, além,
Um homem, homem de bem.
Nas patranhas mitológicas,
Nessa impostura faceta,
Com seu ressaibo de peta,
De Jano é duplo o semblante,
Uma trás, outro adiante.
Na quadra do positivo,
Da verdade nua e crua,
Pela estrada, pela rua
A cada passo deparas
Sujeito de duas caras.
Uma para prometer,
A outra para cumprir,
Uma quando vem pedir,
A outra quando lhe rogo
A satisfação do — logo.
No grêmio da gente sã,
E na mais polida roda,
Está no rigor da moda,
No próprio ou negócio alheio
Da mentira o galanteio.
E vive a mil maravilhas
O mentiroso impudente:
Não há nada que não tente,
E se no mentir não cansa,
Quanto exige, tanto alcança.
Porque papalvos há sempre,
Sempre dispostos à pulha,
E sem matinada ou bulha,
Com balda de sabichões
Engolem carapetões.
— Palavra de Rei não volta-
Era adágio antigamente;
Mas na época presente
Vai d’avante para trás,
Como o caranguejo faz.
Ali não vês o magnate
A quem tributam respeito
E cortes ias a eito?
Em mui breve relatório
Eu te explico o meninório.
É rico, mas não herdou
De a um parente por morte;
Não consta tirasse sorte,
Nem descobrisse tesouro,
Ou nas minas veia de ouro.
De flexível consciência
Já tem hábito de usura,
E da humana criatura
No tráfego ou contrabando
Vai a fortuna aumentando.
E porque o mundo assim é,
E quem está dando as cartas.
E as barrigas menos fartas
Acreditam, mas em vão,
Que ele vai fabricar pão.
Porém — coitadas! — iludem-se,
Pois certamente o ricaço
É na utilidade escasso,
E quando ao favor se obriga,
Serve a riqueza de figa.
Já tens observado bem
Todos os traços do vulto
Daquele jurisconsulto?
Quando considera e pensa,
’Stá ponderando a sentença.
Não sei porém distinguir
Se é sacerdote de Astreia;
Pois, segundo minha ideia,
Também o mercador lança
Seus produtos na balança.
Naquele fidalgo gira
O sangue de Reis avós;
Sobre o peito se lhe pôs
Perto da Grã-Cruz da Rosa
De Comendas uma grosa.
Entretanto na taverna
Não lhe fiam dez tostões,
E em desar de seus brasões,
E a despeito das bravatas
Mandam-no plantar batatas.
Inventou-se na política
Certo palavrão de fuma,
Seja pro grama o u pro-trama,
Como quer que ele se tome,
Não se perca pelo nome.
Por índole do sistema
Há dous partidos na terra;
Enquanto um ateia a guerra,
O outro tece louvaminhas
Ao governo das papinhas.
Será convicção que os move,
Amor da Pátria que os guia
Na batalhada porfia?
Sê-lo-á, sê-lo-não-á,
Ou será, ou não será!
Em véspera de eleições
O candidato se empenha,
Oferecendo a resenha
De meditados projetos
Tão salutares quão retos.
Dos sufrágios espontâneos
Passado o momento crítico,
Procede como político;
As promessas não recorda,
E ao votante rói a corda.
Eis ali um fazendeiro
Símbolo da probidade!
Veio passear à cidade
A ver se tem crescimento
O preço do mantimento.
Inda não julga bastante
Dos comestíveis a falta,
E o farelo à espera de alta
Do paiol vai para o sol
E do sol para o paiol.
Se há carestia de víveres,
E a peso de ouro se come,
Quem terá culpa na fome,
Que despido e já sem capa
O mísero pobre rapa?
Vês o padre a folhear
O seboso breviário?
Está fazendo inventário
Das sobras que reservadas
Servem pra maior de espadas.
Se é pastor, não dá pastagem;
Se é pároco ou cura de almas,
Nem dos mártires as palmas,
Nem de espinhos a coroa
Lhe parecem cousa boa.
Não obstante, o povo crédulo
Intitula-o — —
E cheio de assombro e espanto
Chega a descobrir indícios
De penitência e cilícios.
Nem tudo que luz é ouro,
E assim Deus me dê saúde.
Como do padre a virtude,
Não sendo metal sem liga,
Tem muito que se lhe diga.
Se aplicando atentamente
Óculos, lanterna, e vista
Passei exata revista
Sem achar o que procuro,
A lanterna dependuro.
Mas não perdi meu trabalho;
Pois estudei as fraquezas
Das humanas naturezas,
E das conclusões, que tiro,
Este juízo profiro:
Presumir homem de bem
Tudo quanto veste calça,
Seria uma ideia falsa
Capaz de induzir ao erro
O espírito menos perro.