A LUIZA ÇAPATA QUERENDO, QUE O AMIGO LHE DESSE QUATRO INVESTIDAS DUAS DE DIA, E ...

By Gregório de Matos Guerra

Uma com outra são duas

pela minha tabuada,

e vós, Mulata esfaimada,

quereis duas vezes duas:

se isso vos dera por luas,

e o quiséreis cada mês,

dera-vos três vezes três;

mas quatro entre dia, e noite,

dar-vos-ei eu tanto açoite,

que farão dez vezes dez.

Pois, Puta, essa vossa crica

tão gulosa é de rescaldos,

que cuidais que os nossos caldos

os compramos na botica?

o caldo não multiplica,

quando entre quatro virilhas

se liquida em escumilhas,

e vós a lavadas mãos

quereis um caldo de grãos,

por um caldo de lentilhas?

É o caldo uma quinta-essência,

e tal, que uma gota fria

produz uma Senhoria,

e talvez uma Excelência:

se tendes dele carência,

e por fartar a vontade

o quereis em quantidade,

não trateis não de esgotar

os culhões de um secular,

ide à barguilha de um Frade.

Puta, se a vossa Ração

hão de ser quatro à porfia,

dormi com quatro em um dia,

e quatro se vos darão:

mas tirá-las de um Cristão,

que apenas janta, e não ceia,

e não dará foda, e meia,

isso é mais que crueldade,

e mais tendo vós um Frade,

que é gato que nunca mea.

Mudai pois os pensamentos,

e se não heis de quietar

com uma do secular,

ide servir aos conventos:

que os leigos já macilentos,

esvaídos, e esgotados

com um mês de amancebados

cobram tão grande fastio,

que já pagam de vazio

dois mil vasos alugados.

No Filho do Caldeireiro

tendes emprego adequado,

pois aos malhos ensinado

fode com um malhadeiro:

se no vale, ou se no oiteiro

lhe dais a mama, e o peito,

e achais, que é moço de jeito,

na parte do olhinho morto

tendes razão, pois é torto,

mas tem o membro direito.