A MARGARIDA, MULATA PERNAMBUCANA QUE CHORAVA AS ESQUIVANÇAS DE SEU AMANTE COM PR...
Carira: por que chorais?
que é perdição não vereis,
as pérolas, que perdeis
pela perda dos corais?
pérolas não valem mais
dos vossos olhos chorados,
que de coral mil ramadas?
pois como os olhos sentidos
vertem por corais perdidos
pérolas desperdiçadas?
Basta já, mais não choreis,
que os corais, todos sabemos,
que não tinham os extremos,
que vós por eles fazeis:
que os quereis cobrar, dizeis:
mas como em cobrança tal
meteis tanto cabedal?
como empregais nesta empresa
o aljôfar, que val, e pesa
muito mais do que coral?
Vós sois fraca mercadora,
pois em câmbio de uns corais
tais pérolas derramais,
quais as não derrama Aurora:
sempre o negócio melhora
as Damas do vosso trato,
mas sem risco, e mais barato:
e em vós é fácil de crer,
que os corais heis de perder,
sobre quebrar no contrato.
Se vós adita o sentido,
que o mar cria coral tanto,
e no mar do vosso pranto
se achará o coral perdido:
levais o rumo torcido,
e ides, Carira, enganada,
porque a água destilada,
que té os beiços vos corria,
muito coral vos daria
de cria, mas não de achada.
Se tratais ao camarada
de ladrão, de ladronaço,
porque vos tirou do braço
coral, que val pouco, ou nada:
é, que estais apaixonada,
bem que com pouca razão:
mas ponde-lo de ladrão,
quando os corais bota fora,
e não os pondes na hora,
que vos rouba o coração.