A MARGARIDA, MULATA PERNAMBUCANA QUE CHORAVA AS ESQUIVANÇAS DE SEU AMANTE COM PR...

By Gregório de Matos Guerra

Carira: por que chorais?

que é perdição não vereis,

as pérolas, que perdeis

pela perda dos corais?

pérolas não valem mais

dos vossos olhos chorados,

que de coral mil ramadas?

pois como os olhos sentidos

vertem por corais perdidos

pérolas desperdiçadas?

Basta já, mais não choreis,

que os corais, todos sabemos,

que não tinham os extremos,

que vós por eles fazeis:

que os quereis cobrar, dizeis:

mas como em cobrança tal

meteis tanto cabedal?

como empregais nesta empresa

o aljôfar, que val, e pesa

muito mais do que coral?

Vós sois fraca mercadora,

pois em câmbio de uns corais

tais pérolas derramais,

quais as não derrama Aurora:

sempre o negócio melhora

as Damas do vosso trato,

mas sem risco, e mais barato:

e em vós é fácil de crer,

que os corais heis de perder,

sobre quebrar no contrato.

Se vós adita o sentido,

que o mar cria coral tanto,

e no mar do vosso pranto

se achará o coral perdido:

levais o rumo torcido,

e ides, Carira, enganada,

porque a água destilada,

que té os beiços vos corria,

muito coral vos daria

de cria, mas não de achada.

Se tratais ao camarada

de ladrão, de ladronaço,

porque vos tirou do braço

coral, que val pouco, ou nada:

é, que estais apaixonada,

bem que com pouca razão:

mas ponde-lo de ladrão,

quando os corais bota fora,

e não os pondes na hora,

que vos rouba o coração.