À MARQUESA DE ALEGRETE, QUANDO LHE NASCEU UMA FILHA

By Nicolau Tolentino de Almeida

Senhora, é cousa sabida,

Que aos deuses não são vedados

Os escondidos segredos

Do escuro livro dos fados;

E pois que em tempos antigos

Já tive alguma valia

Co’aquele, a quem coube em forte

O governo da poesia;

Não esperando do tempo

O vagaroso progresso,

E desejando augurar-vos

O vosso feliz sucesso;

Na raiz do alto Parnaso,

Curvando o humilde joelho,

Exclamei “Se aqui se escutam

Votos de um poeta velho,

“Não te peço, esquivo Apolo,

Teus verdes, sagrados loiros;

Não aspiram a coroas

D’esta testa os velhos couros;

“Abre, sim, a densa névoa

Do vindouro tempo escuro;

E ante meus ávidos olhos

Rasga as sombras do futuro;

Saiba meu justo desejo

Quanto o destino promete

Aos nossos ardentes votos,

E aos da assustada Alegrete.”

O Deus, que nunca em mim viu

De Odes moiras a mania,

Que sem o assunto honrarem,

Lhe desonram a poesia;

Que em Oiteiros de Oratório

Não lhe pus a lira ao frio,

Arriscando-a a ter por paga

Ou pedrada, ou assobio;

E muito mais porque viu,

Que da minha petição

Eram sagrados motivos

A amizade, e a gratidão;

Fez fuzilar em meus olhos

Nova luz, vedada, e pura;

E de tudo o que então vi,

Vos vou fazer a pintura.

Vi, Senhora, as loiras graças

Com doce, e risonho aspeito,

Tecendo engenhosas danças

Em torno de um áureo leito;

E abrindo as ricas Cortinas

Trazerem nos castos braços

O digno, e precioso Fruto

De ilustres, sagrados laços.

Sobre o mimoso semblante,

Em que os seus dons inspiravam,

Dos mais altos pretendentes,

Mil suspiros auguravam;

Os prazeres sobre as asas

O berço lhe rodeavam;

Fortuna lhe abria os cofres,

As Virtudes a embalavam;

Vi Penalvas, vi Angejas,

Que aos céus mil hinos mandavam;

Aos céus, que as duas famílias

Novamente abençoavam:

Vi a roda das criadas,

Que à Menina dando vai,

Umas, os olhos da Mãe,

Outras, a boca do Pai;

Mas Apolo aqui fechando

As altas cousas futuras,

E deixando o pobre velho

Alegre, mas às escuras;

Me disse: “Conta o que viste;

O mais, em tempo vindouro,

Fiel, apurada história,

O dirá em letras de oiro;

Corri: mas trêmulas pernas

Tem sempre estrada comprida;

E pois acho a profecia,

Gradas aos céus, já cumprida,

Beijo respeitosamente

Estas faixas, que envolveram

Aquela, a quem dão a vida

Os que a minha protegem;

“Recebe, oh recém-nascida,

Terno amor, alto respeito;

Teus avós, teus claros pais

Te deram este direito;”

E tu, formosa Alegrete,

Que depois de erguida a mesa,

Ficavas co’as velhas aias

De mágicos filtros preza;

Quando eu a teus pés contava,

Mentiroso historiador,

Ora a do caixão de vidro,

Ora a das cidras do amor;

Quando os mesmos tenros anos

A tua filha contar,

Todos os dias virei

Meu ofício exercitar,

E em tanto, a pesar do tempo,

Que a fronte me vai gelando,

Com a rouca lira às costas

Pelo Parnaso trepando:

Vou sentar-me entre os loureiros,

Que rega Castália fria;

Onde revoam em bandos

Os gênios da poesia;

E co’a testa descoberta

À viração benfeitora,

Traçarei mais dignos versos

Do que estes, que ouvis agora;

Com tempo os irei fazendo;

O Deus também me fez ver,

Que sobre este mesmo assunto

Tenho muito que escrever.