A MAY DE MARIA JOÃO CHAMADA IZABEL NÃO LEVAVA EM GOSTO AS AMIZADES DE SUA FILHA COM O POETA, OU SE TEMIA DE MARIQUITA, E OCCACIONANDO ENREDOS O POETA LHE CANTA A MOLIANA.
Já que a puta Zabelona
anda morta por me ouvir,
eu lhe corto de vestir,
que anda despida a putona:
se eu disse, que a sua cona
trazia a borda desfeita,
já creio, que a tem perfeita,
que estando dos eixos fora,
quem nela bateu agora,
agora lha pôs direita.
Em uma direita porta
feita por bom capinteiro,
quem nela bateu primeiro
esse primeiro a entorta:
mas depois de estar já torta,
e depois que se entortou,
o malho, que ali malhou,
se malhar, e porfiar,
ou a porta há de quebrar,
ou o malho a endireitou.
Tudo isto à Zabel se ajeita:
a borda ia desvairada,
deram-lhe tanta pancada,
que isso mesmo a pôs direita
e a Filha é moça escorreita,
e basta, que o dissesse eu,
mas como o mesmo correu,
e os mesmos passos andou,
se transes a Mãe passou,
o mesmo lhe sucedeu.
Se falam de Bibiana,
tudo Bibiana fora,
a preta é muito Senhora,
mas branca, amorosa, humana:
Maria é mui desumana,
sacudida, e pespegada,
e esta cansada jornada,
que faz ao rio das pedras,
se faz pelas suas medras
sei que me deixa por nada.
Por nada, e menos de nada,
pois por um negro cueiro
mui negro, e mni lamareiro
se faz sua camarada:
o Preto é porra tisnada
mas sobre ser porra dura,
é porra dura, que atura,
o Branco mais lindo, e belo
é porra de caramelo,
desfaz-se na cozedura.
O medo de vir à Ilha
foi mui bem considerado,
pretexto se dá ao pecado,
da má Mãe nasce a má Filha:
a mim, não me maravilha,
que do Branco fuja a Preta;
mas se a Mãe é tão discreta,
como não lhe entra no peito,
que aqui se me tem respeito,
ou por branco, ou por poeta.
Quem olhos levantaria
para Maria João,
vendo, que no coração
trago a João, e a Maria?
escusas de cada dia
são sempre, as que dá uma puta,
e por dar fim à disputa,
vão embora por seu pé
aos montes de Gelboé,
que cá não me falta fruta.
Siris nem moles, nem duros
tocam a tão alta saia,
que isto de ir servir à praia,
são serviços de monturos:
lavar serviços impuros,
como é serviço do mar,
isto mesmo é mariscar,
e as negrinhas desta Ilha
mariscam por maravilha
só por nos maravilhar.
Se quis esses bons siris,
que não lhes nego a bondade,
bem sabe a minha vontade,
que os há cá muito gentis:
e se por lisonja o fiz,
e os pedi por agradar,
a quem tem gosto de os dar,
agora me emendarei,
e jamais os pedirei
às Negras de mariscar.
Esta Maria João
de conselhos bem guiada
está bem aconselhada
mas põe sempre a mão no chão:
se os conselhos, que lhe dão,
lhos dá, quem os há mister,
triste da pobre mulher,
que há de obrar pelo conselho
do pobre cueiro velho,
que não tem, o que há mister.