A MESMA FREYRA D. MARIANNA PELO MESMO CASO DE SE HAVER APPELLIDADO ORTIGA.
Como vos hei de abrandar,
se dizeis, que sois Urtiga
salvo se vos açoutar,
porque então heis de ficar
mais branda que uma bexiga.
Outro remédio melhor
sei eu para a formosura,
que faz gala do rigor,
e é não a querer, que amor
se vê, que vos faz mais aura.
Mas se isto de não querer-vos,
a dureza há de abrandar-vos,
sempre hei de vir a perder-vos,
que o mesmo é morrer de ver-vos,
que morrer de não falar vos.
Com que a cura de meu mal
é amar, calar, sofrer
que quando o mal é mortal,
se à vida é prejudicial,
será remédio o morrer.
Eu morro de vos querer,
e tanto em morrer persisto,
que podereis vos fazer,
que não ficasse malquisto
o venturão de vos ver.
Pois sabida a minha morte,
e a sua causa sabida,
fugindo vós de corrida,
todos terão por má sorte
ver-vos, e perder a vida.
Mas eu, que do mal de amor
faço tanta estimação,
não hei de queixar-me não
de tão formoso rigor,
nem de tão bela afeição.
Antes morte tão luzida
com tal gosto a ela corro,
que temo, minha homicida,
que me torne dar a vida
o prazer, com que me morro.