À MESMA FREYRA EM OCCASIÃO, QUE O POETA À OUVIU CANTAR COM AQUELLA ESPECIAL GRAÇ...

By Gregório de Matos Guerra

Oh quem de uma Águia elevada

tIvera uma pena! eu creio,

que só então com fortuna

descrevera a sol tão belo.

Porém se tenho de Fênix

as penas dentro em meu peito

pelo abrasado, em que vivo

sejam chamas, quanto escrevo.

Mas não: sejam lavaredas

à vista desse luzeiro,

que a vista de sol tão claro

escurece um vivo incêndio.

Contudo se o desafogo

se permite a todo o peito,

por não estalar esta alma,

coragão, desabafemos.

Convosco falo, Senhora,

de minhas atenções centro,

que a voz de um vale humilhado

também chega ao monte excelso

Recebi o sacrifício

de um profundo rendimento,

que as Deidades soberanas

aceitam toscos obséquios.

Não culpeis esta ousadia,

nem crimineis tanto excesso

que o destino de alta estrela

me influi um amante excesso.

Vi esse pasmo, que adoro,

ouvi a voz, que venero,

de ver fiquei sem sentido,

e de ouvir sem pensamentos.

Por ouvir fico enlevado,

e por ver fico suspenso,

se o ver me prendeu o corpo,

o ouvir a alma me tem preso.

Um pasmo de formosura

do corpo é somente enleio,

e a voz mais doce, e canora

é só d’alma firme emprego.

Mas ser cantora suave,

e ser gentil com portento

é ser labirinto, e pasmo

d’alma, e corpo ao mesmo tempo.

Porém se em laços tão doces

for eterno prisioneiro,

não terão prêmio mais alto

meus firmíssimos intentos.

No nome sois mar de graça,

de prendas sois mar imenso,

não permitais, que naufrague

meu arnor sem ter remédio.

Concedei-me um mar bonança,

porto seguro, e sereno,

que a esperança de servir-vos

é âncora de querer-vos.

Na firmeza sou penhasco,

mas pronto a qualquer aceno,

por isso as ondas mais brandas

desse mar serei ligeiro.

O vento do vosso agrado

sopra sobre mim preceitos,

serei baixel, que obediente

voe como um pensamento.

Seguirei o vosso norte,

e por navegar direito,

só esse sol seja o astro,

que eu observe com empenho.

Não haverá tempestade,

por brabo que sopre o vento,

que obrigue a mudar de rumo,

quando em vosso mar navego.

Venham pois de vossas luzes

os mais brilhantes reflexos,

porque possa encher a altura

da viagem dos afetos.

Mandai, que a vossa presença

chegar possa a salvamento,

pois ao mar dessas ternuras

com vento em popa navego.