À MESMA FREYRA MANDANDOLHE HUM PRESENTE DE DOCES.

By Gregório de Matos Guerra

Um doce, que alimpa a tosse,

cousa muito grande era,

se eu não trocara, e pudera

a doçura pelo doce:

se quisera Amor, que eu fosse

tão digno, e tal me fizera,

que juntos vos merecera

ora o doce, a doçura ora,

maldita a minha alma fora,

se tudo vos não comera.

Mas há grande distinção.

e discrímen temerário

entre os doces de um almário,

e as doçuras de uma mão:

e quem é tão sabichão

destro no ré mi fá sol

mal pode errar, em seu prol,

quando sabe, que a doçura

se se come, é por natura,

e os mais doces por bemol.

O que enfim venho a dizer,

é, que se à minha ventura

negais comer da doçura,

doces não hei de comer:

não hei de troca fazer,

mais que a palos me moais,

e se comigo apertais,

que os vossos doces almoce,

é fazer-me a boca doce,

quando a mim é por demais.

Trocai o doce em favor,

e curai meu mal tão grave

co’aquela ambrósia suave,

com que foi criado o Amor:

o néctar será melhor,

que destilam vossas flores,

que são tão secos favores

são de amor efeitos pecos,

tão mais são amores secos,

como são secos amores.