A MESMA MARIANNA PEDINDO LHE FIZESSE HUNS VERSOS, ENCONTRANDO-A NO MAR INDO PARA...

By Gregório de Matos Guerra

Os versos, que me pedis,

podendo-os mandar formar,

que vós por me não mandar,

não mandareis dois ceitis:

como sem assunto os fiz,

pois vós a vosso contento,

não destes o pensamento,

os rasgues, por ser melhor

assunto do meu amor,

que o vosso contentamento.

Por sete anos de Pastor

serviu Jacó a Raquel,

eu servi a uma cruel,

mais de sete anos de amor:

a Jacó lhe foi traidor

Labão: cuja aleivosia

por Raquel lhe entregou Lia,

e a mim não pior me vai,

se me não engana um Pai,

veio a enganar-me uma Tia.

Esta tão assegurada

me propôs a refestela,

que cuidei, que tinha nela

a tutia preparada:

enganou-me de malvada

tanto pior, que Labão,

que Lia a Jacó lhe dão,

bem que com sorte trocada,

e a mim nem Lia, nem nada

me deram, dão, nem darão.

Oito anos há, que fiel,

estou servindo a um amor,

que Labão não foi pior,

porque vós sois a Raquel:

esta ingratidão cruel

foi o meu triste alimento

oito anos, e fôra um cento,

porque quem chega a querer,

para ajudar-se a viver

faz do Malquerer sustento.

Ontem vos topei no mar

em uma barca tão breve,

quem nem por ligeira, e leve

os pôde a vista alcançar:

pus-me logo a duvidar,

vendo-vos ir sôbre pôpa,

se sérieis vós Europa

sôbre a vaca fabulosa,

mas vós íeis mais formosa,

do que Europa, e tôda Europa.

Se hei de dizer-vos verdade,

e me haveis de crer a mim,

até o meu bergantim

ficou morto de saudade:

ficou de tal qualidade

a barquinha entropecida,

que nem do vento impelida,

nem do remo forcejada

se moveu, antes pasmada,

que a vi por vós perdida.

Com trabalho em tanta calma,

(que o trabalho havia eu tido,

por não haver conhecido;

o que tinha dentro n’alma)

levei do perigo a palma,

e ao pôrto o bergantim,

e saindo dêle enfim

soube já na terra lhana,

que éreis vós a Mariana

disfarçada em serafim.

Então fiquei mais absorto,

mais sentido, e pesaroso

mais amante, e mais saudoso,

enfim então fiquei morto:

nestes versos me conforto,

pois nêles se queixa Amor:

e inda que o vosso favor

é coisa, que nunca espero,

digo ao menos, que vos quero,

e alivio a minha dor.