A MESMA MULATA APPARECENDO EM OUTRA OCCASIÃO AO POETA MUY DESFIGURADA, AMARELLA,...

By Gregório de Matos Guerra

Queixam-se, minha Esperança,

os que convosco têm cópia,

que sendo em sangue Etiópia,

sois nos maus humores França:

eu, que o não tomei por chança,

logo desisti da empresa

de lograr essa beleza,

porque é o mesmo, e pior

ter do mal francês humor,

que os narizes à francesa.

Se estais tão afrancesada,

que lascívia vos provoca

a dares beijos na boca,

devendo-os dar na queixada?

mas vós tendes tão trocada

a paz do nosso País

no álamo de Paris,

que como o bom português

traduzis em mau francês,

até os beijos traduzis.

Deixai mudas de uma vez,

sendo (pois vos acomoda)

ou do bom português toda,

ou toda do mal francês:

curai, inda que vos pes,

com cuidado, e sem detença

essa gálica doença,

ou borracheira gavacha,

que entre gavacha, e borracha,

há mui pouca diferença.

Se andastes qual peregrina

toda a Franca em uma alparca,

e passando à Dinamarca

voltastes de marca digna:

e que a puro pau da China

nos hemos de desmarcar,

todos podemos clamar,

de que com tantos abalos

vos fostes deitar cos Galos

a fim de nos galicar.

Dizem, que em cada tutano

do vosso corpo podrido

anda impresso, e esculpido

um reportório do ano:

matemático tirano

são os vossos olhos fritos,

e se estando mais aflitos

tudo adivinhando estão,

é triste adivinhação

pronosticar tudo a gritos.

Não quisera eu, meus amores,

aprender noite, nem dia

essa vossa astrologia

à custa de minhas dores:

saber do tempo os rigores,

do ar a serenidade

será ciência em verdade

dessa vossa pestilência,

mas tomai vós a ciência,

e dai-me a simplicidade.