A MESMA MULATA APPARECENDO EM OUTRA OCCASIÃO AO POETA MUY DESFIGURADA, AMARELLA,...
Queixam-se, minha Esperança,
os que convosco têm cópia,
que sendo em sangue Etiópia,
sois nos maus humores França:
eu, que o não tomei por chança,
logo desisti da empresa
de lograr essa beleza,
porque é o mesmo, e pior
ter do mal francês humor,
que os narizes à francesa.
Se estais tão afrancesada,
que lascívia vos provoca
a dares beijos na boca,
devendo-os dar na queixada?
mas vós tendes tão trocada
a paz do nosso País
no álamo de Paris,
que como o bom português
traduzis em mau francês,
até os beijos traduzis.
Deixai mudas de uma vez,
sendo (pois vos acomoda)
ou do bom português toda,
ou toda do mal francês:
curai, inda que vos pes,
com cuidado, e sem detença
essa gálica doença,
ou borracheira gavacha,
que entre gavacha, e borracha,
há mui pouca diferença.
Se andastes qual peregrina
toda a Franca em uma alparca,
e passando à Dinamarca
voltastes de marca digna:
e que a puro pau da China
nos hemos de desmarcar,
todos podemos clamar,
de que com tantos abalos
vos fostes deitar cos Galos
a fim de nos galicar.
Dizem, que em cada tutano
do vosso corpo podrido
anda impresso, e esculpido
um reportório do ano:
matemático tirano
são os vossos olhos fritos,
e se estando mais aflitos
tudo adivinhando estão,
é triste adivinhação
pronosticar tudo a gritos.
Não quisera eu, meus amores,
aprender noite, nem dia
essa vossa astrologia
à custa de minhas dores:
saber do tempo os rigores,
do ar a serenidade
será ciência em verdade
dessa vossa pestilência,
mas tomai vós a ciência,
e dai-me a simplicidade.