À MESMA MULATA MANDANDO AO POETA UM PASSARINHO.

By Gregório de Matos Guerra

Este favor, que é valia,

diz Amor, porque se afoite,

que, o que me destes de noite

quisestes mandar de dia:

foi favor por simpatia,

porém, que seja, me espanta

esse pássaro, que encanta,

quando de músico aposta,

de noite uma ave, que gosta,

de dia uma ave, que canta.

Certo, que amor presumiu,

quando o pássaro apalpei,

que, o que de noite vos dei,

pela manhã vos fugiu:

mas se este efeito vos viu,

meus amores, certifico,

que o tal passarinho rico

foi por singular razão

de noite a buscar o grão,

de dia a molhar o bico.

És galharda Mariquita

desvelo dos meus sentidos,

pois em continos gemidos

vivo por lograr tal dita:

meu coração me palpita.

quando te vejo passar

com tal garbo, e com tal ar,

que deixas-me alma perdida,

e se me pode dar vida,

porque me queres matar?

Minha rica Mulatinha

desvelo, e cuidado meu,

eu já fora todo teu,

e tu foras toda minha:

juro-te, minha vidinha,

se acaso minha qués ser,

que todo me hei de acender

em ser teu amante fino

pois por ti já perco o tino,

e ando para morrer.