À MESMA MULATA MANDANDO AO POETA UM PASSARINHO.
Este favor, que é valia,
diz Amor, porque se afoite,
que, o que me destes de noite
quisestes mandar de dia:
foi favor por simpatia,
porém, que seja, me espanta
esse pássaro, que encanta,
quando de músico aposta,
de noite uma ave, que gosta,
de dia uma ave, que canta.
Certo, que amor presumiu,
quando o pássaro apalpei,
que, o que de noite vos dei,
pela manhã vos fugiu:
mas se este efeito vos viu,
meus amores, certifico,
que o tal passarinho rico
foi por singular razão
de noite a buscar o grão,
de dia a molhar o bico.
És galharda Mariquita
desvelo dos meus sentidos,
pois em continos gemidos
vivo por lograr tal dita:
meu coração me palpita.
quando te vejo passar
com tal garbo, e com tal ar,
que deixas-me alma perdida,
e se me pode dar vida,
porque me queres matar?
Minha rica Mulatinha
desvelo, e cuidado meu,
eu já fora todo teu,
e tu foras toda minha:
juro-te, minha vidinha,
se acaso minha qués ser,
que todo me hei de acender
em ser teu amante fino
pois por ti já perco o tino,
e ando para morrer.