A meu pai
Como meu pai morresse
Por uma noite assim, de claros alabastros
Transformados em lâmpadas suspensas,
(Tais eram os atros
Nas regiões imensas)
Aos céus ergo uma prece.
E procuro indagar
Do destino feliz, ou infeliz da sua alma,
Que, ao lado da alegria,
Tantas horas passara a soluçar;
E, das horas de calma.
Tantas horas passara a derramar
Gotas de pranto, no mundo vário,
Iguais às negras contas de um rosário.
Do destino feliz ou infeliz da sua alma
Que às vezes era calma
Como uma fonte aberta entre montanhas;
E, às vezes, parecia
Um mar batido pelos vendavais,
Vindos não sei de que fantásticas entranhas,
Só tu, Virgem Maria,
Umas notícias poderás me dar
Porque tu, afinal, Virgem Maria,
Sempre andaste no Mundo, e continuarás
A andar, resplandecente
Para encher de consolo o coração da gente.
Quando meu pai morreu, toda a sua cabeça
Era tão branca como a neve
Que cai de leve
Sobre a floresta espessa,
Ou sobre o campo; ou sobre o rio, ou sobre o lago,
Num dia pressago
De chuvas tristes e continuadas.
Em que as estradas, e os terreiros
Barrentos
Ficam da cor do sangue nas batalhas,
Quando os guerreiros
Fazem do próprio sangue as trágicas mortalhas
Para os seus corpos pestilentos.
Quando meu pai morreu, já lhe haviam passado
Pelos curvados ombros.
Temeridades de assombros
De um viver atormentado:
E houvera ele galgado
Um calvário de escombros;
E chorado, talvez, como Jó, o lendário
Que, recolhido a um canto, Solitário,
Contava e recontava as gotas do seu pranto,
Como se fossem contas de um rosário.
E ele, triste, me disse, à hora extrema da vida:
— “Meu filho, o céu azul é uma Casa Infinita,
Com Moradas nos sóis e nas brancas estrelas...
Mas não sei que será desta minh’alma aflita,
Que, na terra, deixou de olhá-las e compreendê-las,
Pela grande amargura em que viveu metida.
Entretanto, confiante, irei por todas essas
Lonjuras siderais, dulcíssimas, serenas...
Abrirei minha crença às divinas promessas,
Só levando por ti a alma cheia de penas...”
Amortalhei-lhe o corpo, e deitei-o de costas,
Num florido caixão, com os pés para a rua;
E beijei-lhe, a chorar, as mãos geladas, postas
Em cruz por sobre o peito.
A essa hora a lua
Parecia, no azul bendito das Alturas,
A porta de marfim e prata de um sacrário.
Absorto, então, fiquei, recordando as doçuras
Do teu Filho, Maria,
De cima do Calvário,
Que noite e dia
Conta, seguido, as contas do rosário
Do nosso pranto amargo, e dos nossos pesares,
E as nossas grandes mágoas
Que são mais do que as águas
Dos rios e dos mares...
E, desde essa hora, penso
Na Felicidade da alma dos quem tanto
Derramaram por sobre o mundo triste e vário,
Tantas gotas de pranto,
Como se fossem as contas de um rosário Imenso!...