A meu pai

By Juvêncio de Araújo Figueredo

Como meu pai morresse

Por uma noite assim, de claros alabastros

Transformados em lâmpadas suspensas,

(Tais eram os atros

Nas regiões imensas)

Aos céus ergo uma prece.

E procuro indagar

Do destino feliz, ou infeliz da sua alma,

Que, ao lado da alegria,

Tantas horas passara a soluçar;

E, das horas de calma.

Tantas horas passara a derramar

Gotas de pranto, no mundo vário,

Iguais às negras contas de um rosário.

Do destino feliz ou infeliz da sua alma

Que às vezes era calma

Como uma fonte aberta entre montanhas;

E, às vezes, parecia

Um mar batido pelos vendavais,

Vindos não sei de que fantásticas entranhas,

Só tu, Virgem Maria,

Umas notícias poderás me dar

Porque tu, afinal, Virgem Maria,

Sempre andaste no Mundo, e continuarás

A andar, resplandecente

Para encher de consolo o coração da gente.

Quando meu pai morreu, toda a sua cabeça

Era tão branca como a neve

Que cai de leve

Sobre a floresta espessa,

Ou sobre o campo; ou sobre o rio, ou sobre o lago,

Num dia pressago

De chuvas tristes e continuadas.

Em que as estradas, e os terreiros

Barrentos

Ficam da cor do sangue nas batalhas,

Quando os guerreiros

Fazem do próprio sangue as trágicas mortalhas

Para os seus corpos pestilentos.

Quando meu pai morreu, já lhe haviam passado

Pelos curvados ombros.

Temeridades de assombros

De um viver atormentado:

E houvera ele galgado

Um calvário de escombros;

E chorado, talvez, como Jó, o lendário

Que, recolhido a um canto, Solitário,

Contava e recontava as gotas do seu pranto,

Como se fossem contas de um rosário.

E ele, triste, me disse, à hora extrema da vida:

— “Meu filho, o céu azul é uma Casa Infinita,

Com Moradas nos sóis e nas brancas estrelas...

Mas não sei que será desta minh’alma aflita,

Que, na terra, deixou de olhá-las e compreendê-las,

Pela grande amargura em que viveu metida.

Entretanto, confiante, irei por todas essas

Lonjuras siderais, dulcíssimas, serenas...

Abrirei minha crença às divinas promessas,

Só levando por ti a alma cheia de penas...”

Amortalhei-lhe o corpo, e deitei-o de costas,

Num florido caixão, com os pés para a rua;

E beijei-lhe, a chorar, as mãos geladas, postas

Em cruz por sobre o peito.

A essa hora a lua

Parecia, no azul bendito das Alturas,

A porta de marfim e prata de um sacrário.

Absorto, então, fiquei, recordando as doçuras

Do teu Filho, Maria,

De cima do Calvário,

Que noite e dia

Conta, seguido, as contas do rosário

Do nosso pranto amargo, e dos nossos pesares,

E as nossas grandes mágoas

Que são mais do que as águas

Dos rios e dos mares...

E, desde essa hora, penso

Na Felicidade da alma dos quem tanto

Derramaram por sobre o mundo triste e vário,

Tantas gotas de pranto,

Como se fossem as contas de um rosário Imenso!...