À MINHA MUSA
Musa, por que aprofundas
Assuntos os mais graves?
Repara, não te encraves:
Não te lances à toa em barafundas.
Não sejas altaneira,
Abaixa tua grimpa;
Vê, não a fuças limpa,
Não te metas em frota sem bandeira.
O mar da poesia
Contém seus arrecifes,
E os ligeiras esquifes,
’Stão sujeitos ao vento e à calmaria.
Compram-se muito caras
As glórias do Parnaso;
Não queiras por acaso
Vestir-te de camisa de onze varas.
Não presta, nada vai
Verso pouco adubado,
O qual sendo provado,
Dizem logo — Ora bolas, falta o sal.
Não presta, nada vai
O verso sem conceito;
Diz o sábio direito:
— Isto é cediço, aquilo é trivial.
Não presta, nada val
O verso que despreza
A doutrina que reza
Dos austeros preceitos da moral.
Se ignoras tantas leis,
Jogas a cabra cega:
A vintém nunca chega
Aquele que nasceu para dez réis.
Conserva-te na praia,
Bem longe do mar alto;
Não te tomem de assalto,
Ao som dos assobios e da vaia.
A quem escreve é preciso
Juízo disponível;
É mais do que possível
Pelas obras mostrar que não tem siso.
Deixa-te pois de histórias,
Musa; já tenho dito,
E agora inda repito
— Do Parnaso são caras as tais glórias.
Muito te aventuraste,
Musa pouco modesta,
E não escapas desta,
Porque daquelas outras escapaste.
Se já fizeste vasa,
Julga-te satisfeita;
Este conselho ace ita:
— De uma vez desmorona e cai a casa.
Sê prudente e discreta,
E verás se te iludo;
Evita antes de tudo
Os labirintos como esse de Creta.
Deixa questões profundas
Aos engenhos mais graves;
É fácil que te encraves,
Se te lanças à toa em barafundas.
O mar da poesia
Tem seus bancos de areia,
E a lancha, que vagueia,
Está sujeita ao vento e à calmaria.
Deixa-te pois de histórias,
Musa; já tenho dito,
E agora inda repito
— Do Parnaso são caras as tais glórias.
Ao teu estilo chocho,
Ao teu metro emperrado,
Será bem aplicado,
Bem trazido, o satírico muxoxo.
Põe-te a viola em cacos
O censor que te lê,
E sem quê nem pra quê,
Decide enfim que vás pentear macacos.
De sentenças tão justas
E bom que não agraves;
Olha não te encraves;
O apelo da sentença aumenta as custas.
Aceita este conselho,
Musa sem tom nem som:
— Fazer um verso bom
É difícil, tem dente de coelho.
E há muitos Aristarcos
Que para rebaixar-te
Podem apelidar-te
— Musa rasteira, musa vil dos charcos.
Deixa-te pois de histórias,
Musa; já tenho dito,
E agora inda repito
— Do Parnaso são caras as tais glórias.