À MORTE DE JUNQUEIRA FREIRE

By Laurindo José da Silva Rabelo

Do retiro claustral cisne sagrado

O vôo desprendeu!

Enchendo os ares pátrios de harmonias

Cantou, depois morreu!

Mistério! — Ave criada entre os altares,

Acaso a turba impura

Do mundo com seu bafo envenenado

Abriu-te a sepultura?!

Punindo-te o desprezo de seus lares

O Anjo de Sião

Por ordem do Senhor tão presto deu-te

A morte, em punição?!

Preso o espírito, acaso, nas cadeias

Do voto eterno e forte

Teve, na luta acerba espedaçando-as,

Por liberdade a morte?!

Mistério! — Respeitemos nesta campa

Decretos divinais!

Sobre as cinzas do morto ao vivo toca

O pranto e nada mais!

Rei que fora! — Era um servo que devia

A vida ao Senhor seu!

Seu Senhor o chamou, a voz ouviu-lhe

E pronto obedeceu!

Duvidais do que digo? — Erguei a campa...

Esse corpo o que é?!

E negareis ainda que era um servo?!

Aí tendes a libré!

Viveu como poeta, de poeta

Deixou o canto e a fama.

Inda no crânio morto tem — bem vedes —

Do louro verde a rama!

Leste-lhe a poesia? Eram arquejos

D’um coração aflito!

De uma alma que ensaiava na matéria

Os vôos do infinito!

Voou!... Cisne de luz, adeja livre

Mau grado a humanidade!

Os hinos dos arcanjos são seus hinos

Seu mundo — a eternidade!