À NEGRA MARGARIDA, QUE ACARIAVA HUM MULATO CHAMANDOLHE SENHOR COM DEMAZIADA PERM...

By Gregório de Matos Guerra

Carina, que acariais

aquele Senhor José

ontem tanga de guiné,

hoje Senhor de Cascais:

vós, e outras catingas mais,

outros cães, e outras cadelas

amais tanto as parentelas,

que imagina o vosso amor,

que em chamando ao cão Senhor

lhe dourais suas mazelas.

Longe vá o mau agouro;

tirai-vos desse furor,

que o negro não toma cor,

e menos tomará ouro:

quem nasceu de negro couro,

sempre a pintura o respeita

tanto, que nunca o enfeita

de outra cor, pois fora aborto,

é, como quem nasceu torto,

que tarde, ou nunca endireita.

A nenhum cão chamais tal,

Senhor ao cão? isso não:

que o Senhor é perfeição,

e o cão é perro neutral:

do dilúvio universal

a esta parte, que é

desde o tempo de Noé,

gerou Cão filho maldito

negros de Guiné, e Egito,

que os brancos gerou Jafé.

Gerou o maldito Cão

não só negros negregados,

mas como amaldiçoados

sujeitos à escravidão:

ficou todo o canzarrão

sujeito a ser nosso servo

por maldito, e por protervo;

e o forro, que inchar se quer,

não pode deixar de ser

dos nossos cativos nervo.

Os que no direito expertos

penetram termos tão finos,

bem sabem, que os libertinos

distam muito dos libertos:

se há brancos tão inexpertos,

que dão benignos, ou bravos

alforrias por agravos:

os que destes são nascidos,

por libertinos são tidos,

porém são filhos de escravos.

O filho da minha escrava,

e dos meus vizinhos velhos,

que eu vejo pelos artelhos,

que ontem soltaram da trava;

porque tanto se deprava

com tal brio, e pundonor,

que quer lhe chamem Senhor:

se consta o seu senhorio

de um bananal regadio,

que cavou com seu suor!

E se são justos os brios

daqueles, que escravos têm,

nisso a mor baixeza vêm,

pois têm por servos seu tios:

e se algum com desvarios

diz, que o ter por natural

sangue de branco o faz tal,

nisso a condenar-se vêm,

porque se o branco faz bem,

como o negro não faz mal?

Tomem de leite um cabaço,

lancem-lhe um golpe de tinta,

a brancura fica extinta,

todo o leite sujo, e baço:

assim sucede ao madraço,

que com a negra se tranca;

do branco o leite se arranca,

da negra a tinta se entorna,

o leite negro se torna,

e a tinta não se faz branca.

Mas tornando a vós, Carira,

que ao negro Senhor chamais,

porque é Senhor de Cascais,

quando vos casca, e atira:

crede, amiga, que é mentira

ser branco um negro da Mina,

nem vós sejais tão menina,

que creiais, que ele não crê,

que é negro, pois sempre vê

em casa a mãe Caterina.

Dizei ao Vosso Senhor

entre um, e outro carinho,

que o negro do seu focinho

é cor, que não toma cor:

e que dê graças a Amor

que vos pôs os olhos tortos

para não ver tais abortos,

mas que há de esbrugar mantenha

daqui até que Deus venha

julgar os vivos, e mortos.