A NOSSA VIAGEM A BLUMENAU

By Delminda Silveira de Sousa

Oito horas da manhã...

Oh! que chuva impertinente!

Vamos gozar, minha gente,

Vida mais grata e louçã.

Adeus, amigos parentes,

Até à volta, feliz!

Aos que ficavam, já diz

Alegre, a turba contente.

Garboso a distância vence

O auto que nos conduz:

Eis a ponte — Hercílio Luz —

Que é glória catarinense.

Monumento portentoso

Eternizando a memória

Do conterrâneo saudoso

Que nos deu progresso e glória.

E o auto voa na estrada

Que parece não ter fim,

Vamos bem; eu vou assim...

Assim, já meio embuchada...

E pergunto a cada instante

— Está perto Itajaí?

Responde o Zico: é ali...

É ali mais adiante...

E a chuva continuava...

Já não podia eu sofrer

Do auto o estremecer,

Os solavancos que dava!

— Parai! — disse, carga à terra,

Numa tremenda agonia,

Sob a chuva que caía

A fazer-nos sempre guerra!

E ali paguei o tributo

Da dolorosa homenagem,

A celebrar a viagem

Que memorável reputo!

Os companheiros, no entanto,

Como se em casa estivessem,

Conversavam, sem que dessem,

Talvez, pelo meu quebranto.

E eu ia bem enjoada

Por essa estrada sem fim:

O Bonzinho... (alma danada!)

Não tinha pena de mim!

Dona Ruth a chupar balas;

Bonzinho o berço embalando;

Seu Zico a Musa esperando,

E eu... eu vendo-me em talas!

Rosária papagueava

Otília, já cor de cera,

Mas sacude a cabeleira

E com todos palestrando!

As cobras vinham à estrada

Para saudar-nos, talvez;

Uma delas, certa vez,

Foi pelo auto esmagada!

— Já estamos em Blumenau?

Ansiosa eu inquiria:

Seu Zico, o ímpio! Sorria...

Bonzinho calava... mau!

Eis-nos, enfim, em Gaspar;

Blumenau está pertinho,

Um pouco mais de caminho,

Lá iremos descansar.

Inda algum tempo sofri

Do enjôo a crueldade,

Quando avistei a cidade

E em paz chegamos ali.

Com quanto alento e alegria

Minh’alma dentro de mim

“Graças a Deus!” disse, enfim,

Chegando à Vila Maria.

O primo Luca e os seus

Bondosos nos receberam;

Pelo conforto que deram

Terão as bênçãos de Deus.

E assim finda-se a viagem

Há tanto tempo sonhada;

Agora, p’ra retirada

Toca aprontar a bagagem.