A OUTRA FREYRA QUE MANDOU AO POETA HUM CHOURIÇO DE SANGUE.
Conta-se pelos corrilhos
que o Pelicano às titelas
sustenta como morcelas
a puro sangue a seus filhos:
vós, Dona Fábia Carrilhos,
se bem cuido, e não me engano,
deveis de ser Pelicano,
que enchestes este chouriço
com o sangue alagadiço
desse pássaro magano.
Com que este chouriço gordo,
tão gordo, e especiado
um filho vosso é criado
co sangue do vosso tordo:
porém tomou mau acordo,
quem quer que o empapelou,
e a dar-mo vos obrigou,
pois não tem caminho enfim,
mandares-me o filho a mim,
que outro Pai vos encaixou.
O que me dita o toutiço,
é, que o paio se mediu;
e por onde este saiu,
pode entrar qualquer chouriço:
direis, que vos não dá disso,
e eu creio, se vos não dá,
mas alguém vo-lo dará,
e que fora o meu quisera,
porque se fartara, e enchera
do sangue, que vai por lá.
Comi o chouriço cozido
com sossego, e sem empenho,
porque outro chouriço tenho
para pagar o comido:
vós tendes melhor partido,
mais liberal, e mais franco,
pois como em real estanco
tal seguro vos prometo,
que por um chouriço preto
heis de levar o meu branco.
Sobre vos aventejar
nas cores desta trocada,
vós destes-me uma talhada,
e eu todo vo-lo hei de dar:
se cuidais de mo cortar,
ele é duro de maneira
que a faca mais cortadeira
não fará cousa, que importa,
que o meu chouriço o não corta,
salvo um remoque de Freira.
Eu o dou por bem cortado
deste primeiro remoque,
que ao vosso mais leve toque
fique de todo esgorado:
então o vosso cuidado
vendo, que tanto me emborco,
e inda assim vos não emporco,
terá por cousa do Olimpo,
que a tripa de um homem limpo
se dê por tripa de porco.
Muito me soube atalhada
do chouriço inda que preto,
e a ser todo vos prometo,
que a ceia fora dobrada:
mas fora mais acertada
cousa, e de menos trabalho
que dando-vos nisto um talho,
uma linguiça vos cangue,
que o chouriço coalha o sangue,
e a linguiça leva o alho.
Eu sou tão bom conselheiro,
que heis de escolher, o que digo,
porque quem fala comigo,
escolhe em um tabuleiro:
se vos for mais lisonjeiro
o chouriço, que a linguiça,
dou gosto, e faço justiça:
mas bem sabe quem se abrocha,
que o chouriço a boca atocha,
e a linguiça o fogo atiça.