A OUTRA FREYRA QUE MANDOU AO POETA HUM CHOURIÇO DE SANGUE.

By Gregório de Matos Guerra

Conta-se pelos corrilhos

que o Pelicano às titelas

sustenta como morcelas

a puro sangue a seus filhos:

vós, Dona Fábia Carrilhos,

se bem cuido, e não me engano,

deveis de ser Pelicano,

que enchestes este chouriço

com o sangue alagadiço

desse pássaro magano.

Com que este chouriço gordo,

tão gordo, e especiado

um filho vosso é criado

co sangue do vosso tordo:

porém tomou mau acordo,

quem quer que o empapelou,

e a dar-mo vos obrigou,

pois não tem caminho enfim,

mandares-me o filho a mim,

que outro Pai vos encaixou.

O que me dita o toutiço,

é, que o paio se mediu;

e por onde este saiu,

pode entrar qualquer chouriço:

direis, que vos não dá disso,

e eu creio, se vos não dá,

mas alguém vo-lo dará,

e que fora o meu quisera,

porque se fartara, e enchera

do sangue, que vai por lá.

Comi o chouriço cozido

com sossego, e sem empenho,

porque outro chouriço tenho

para pagar o comido:

vós tendes melhor partido,

mais liberal, e mais franco,

pois como em real estanco

tal seguro vos prometo,

que por um chouriço preto

heis de levar o meu branco.

Sobre vos aventejar

nas cores desta trocada,

vós destes-me uma talhada,

e eu todo vo-lo hei de dar:

se cuidais de mo cortar,

ele é duro de maneira

que a faca mais cortadeira

não fará cousa, que importa,

que o meu chouriço o não corta,

salvo um remoque de Freira.

Eu o dou por bem cortado

deste primeiro remoque,

que ao vosso mais leve toque

fique de todo esgorado:

então o vosso cuidado

vendo, que tanto me emborco,

e inda assim vos não emporco,

terá por cousa do Olimpo,

que a tripa de um homem limpo

se dê por tripa de porco.

Muito me soube atalhada

do chouriço inda que preto,

e a ser todo vos prometo,

que a ceia fora dobrada:

mas fora mais acertada

cousa, e de menos trabalho

que dando-vos nisto um talho,

uma linguiça vos cangue,

que o chouriço coalha o sangue,

e a linguiça leva o alho.

Eu sou tão bom conselheiro,

que heis de escolher, o que digo,

porque quem fala comigo,

escolhe em um tabuleiro:

se vos for mais lisonjeiro

o chouriço, que a linguiça,

dou gosto, e faço justiça:

mas bem sabe quem se abrocha,

que o chouriço a boca atocha,

e a linguiça o fogo atiça.