A OUTRO CAPITÃO QUE TINHA SIDO DE COURAÇAS EM PORTUGAL QUE SE CASOU COM HUMA FIL...

By Gregório de Matos Guerra

Basta, Senhor Capitão,

que se recebeu Você?

estimo muito: porque

deu à terra um alegrão:

a este himeneu lhe dão

os parabéns, os que o vêem,

e eu lhos darei também:

porque é razão natural,

que como sinto o seu mal

folgue também com seu bem.

A Noiva, que você goza,

partes tem para querida,

é nobre, é bem entendida,

é rica, e muito formosa:

não tem finalmente cousa,

das que a malícia reprova:

não é velha, é muito nova,

dizem, que honrada seria,

o que você provaria,

quando lhe tirou a prova.

Bem mostra, que com quatro olhos

buscou tão bela consorte,

porque mulher de tal porte

não se enxerga sem antolhos:

livre está você de abrolhos,

meu Capitão de Couraças,

de que pode a Deus dar graças;

mas repare nos retornos,

não se convertam em cornos

essas luzentes vidraças.

Que a mulher, que se requesta,

ou seja dama, ou casada,

de quem se vê mais amada,

põe logo o dado na testa:

e veja você, que desta

ter muitos zelos convinha,

que, quem foi levianazinha,

não é grande maravilha,

siga os passos, como filha

da mãe, que vai pela vinha.

Você no ardente aparelho

além de ser grão soldado,

me parece sutil galgo

no alcançar deste Coelho:

mui honrado fica o velho

da sua filha lhe dar

para com você casar:

porque sabe sem descontos

dessa fidalguia os pontos

e entende do seu Solar.

Só duas mães feiticeiras

tal casamento fariam,

que já de putas viviam,

e hoje só de alcoviteiras:

estas duas medianeiras

com redomas, e unguentos,

Circes nos encantamentos

fizeram com seus assaltos

vossos pensamentos altos

sujos, e vis pensamentos.

Fizeram estas traidoras

com seus feitiços sutis

semelhantes os ardis

das Circes encantadoras:

as quais com traças sonoras

(muitos nas fábulas leram)

que alguns homens converteram

em porcos: mas estas duas

com feitiçarias suas

mais do que porco o fizeram.