À PENDENCIA QUE TEVE MARANA DE LEMOS COM VICENCIA POR RESPEYTO DE ANTONIO DE MOU...

By Gregório de Matos Guerra

Botou Vicência uma armada

de uma canoa, e dous remos

contra Marana de Lemos,

que estava numa emboscada:

por uma encoberta estrada

entrou no reduto, e logo

o Capitão, disse “fogo”:

e vendo arder o seu fato

o Capitão, que é beato,

tomou as de Vila Diogo.

Por Diogo Pissaro grita,

que acuda a casa queimada,

que Vicência vinha assada

por ver a Marana frita:

Pissaro, que perto habita

entrou, e vendo as disputas

de putas tão dissolutas,

disse (porque elas teimam)

aqui-d’El-Rei, que se queimam

de ciúmes duas putas.

Marana a nenhum partido

a praça quis entregar,

que é soldado singular,

nas campanhas de Cupido:

Vicência tinha vencido,

pois entrou na fortaleza,

mas Deus sabe, o que lhe pesa

de não poder conseguir.

haver então de sair

com armas, e mecha acesa.

Não pôde dizer-lhe ali

esta honra militar,

que Marana por se armar

quis a mecha para si:

o que há, que notar aqui

é, que uma, e outra velhaca

dando tão grande matraca,

e o sentinela, que brama,

o General sobre a carna

roncava como uma vaca.

Se é certo, que o General

em tal conflito roncou

é, que a prima noute andou

visitando o arraial:

como por todo o arrebal

andou qual Jacurutu,

sempre à espera de um Tatu,

que do laço lhe escapou,

com pé leve se deitou,

dormiu com pesado cu.

Vicência a passos contados

perdeu a praça, e a presa,

porque é por sua simpleza

moça de bofes lavados:

mas o Capitão dá brados

de lidar sempre com isto,

e de um, e doutro anticristo

se deseja em liberdade,

como há de ver, se há verdade

nas cartas, e no seu Cristo?