À PENDENCIA QUE TEVE MARANA DE LEMOS COM VICENCIA POR RESPEYTO DE ANTONIO DE MOU...
Botou Vicência uma armada
de uma canoa, e dous remos
contra Marana de Lemos,
que estava numa emboscada:
por uma encoberta estrada
entrou no reduto, e logo
o Capitão, disse “fogo”:
e vendo arder o seu fato
o Capitão, que é beato,
tomou as de Vila Diogo.
Por Diogo Pissaro grita,
que acuda a casa queimada,
que Vicência vinha assada
por ver a Marana frita:
Pissaro, que perto habita
entrou, e vendo as disputas
de putas tão dissolutas,
disse (porque elas teimam)
aqui-d’El-Rei, que se queimam
de ciúmes duas putas.
Marana a nenhum partido
a praça quis entregar,
que é soldado singular,
nas campanhas de Cupido:
Vicência tinha vencido,
pois entrou na fortaleza,
mas Deus sabe, o que lhe pesa
de não poder conseguir.
haver então de sair
com armas, e mecha acesa.
Não pôde dizer-lhe ali
esta honra militar,
que Marana por se armar
quis a mecha para si:
o que há, que notar aqui
é, que uma, e outra velhaca
dando tão grande matraca,
e o sentinela, que brama,
o General sobre a carna
roncava como uma vaca.
Se é certo, que o General
em tal conflito roncou
é, que a prima noute andou
visitando o arraial:
como por todo o arrebal
andou qual Jacurutu,
sempre à espera de um Tatu,
que do laço lhe escapou,
com pé leve se deitou,
dormiu com pesado cu.
Vicência a passos contados
perdeu a praça, e a presa,
porque é por sua simpleza
moça de bofes lavados:
mas o Capitão dá brados
de lidar sempre com isto,
e de um, e doutro anticristo
se deseja em liberdade,
como há de ver, se há verdade
nas cartas, e no seu Cristo?