A PERSUAÇÕES DE THOMAZ PINTO ESCREVE CATONA AO POETA HUMA CARTA TODA CHEYA DE AM...

By Gregório de Matos Guerra

Recebi as tuas regras,

meu amor, minha Antonica,

as quais, te juro, me deram

para mais penas mais vida.

Ressuscitei, quando as li

do letargo, em que me via,

mas quem vive para as penas,

morre, quando ressuscita.

Teu objeto em cada letra

contemplei por vida minha,

mostrando-me em cada termo

tua essência uma alegria.

Recebi os teus abraços,

gozei-me em tuas carícias

e por te ver, meus amores,

todo me enchi de alegrias.

Eu zeloso te falava,

tu mil zelos me pedias,

eu queixoso, e tu queixosa,

eu morto, e tu insofrida.

Nesta amante confusão,

no logro destas delícias

me vi, Tona dos meus olhos,

quando tuas regras lia.

Mas porém foram de amor

tudo aparências fingidas,

tudo sombras fabulosas,

e tudo doces mentiras.

Porque logo o desengano,

que as verdades acredita,

me fez ponderar-te ausente

na distância, onde me ficas.

Vendo então, que era sonhada

a fortuna sobredita,

comecei com meus excessos

a fazer, o que convinha.

Enternecido, e saudoso,

meus olhos lágrimas vivas

lançam, vendo-me já morto

em correntes repetidas.

Um suspiro as acompanha

pronóstico de agonias,

que publicando saudades

os mesmos astros lastima.

E como a causa tu sejas,

minha ausente, minha rica,

hão de ser dela os efeitos

por desiguais sem medida.

Os efeitos, que me causam

saudades tão repetidas,

meu afeto tos relata,

meu grande amor tos publica.

Considero-te, meu bem,

distante da minha vista,

e como vivo de ver-te,

sem ver-te não tenho vida.

Sempre está meu coração

em sobressalto, e fadigas,

porque sabe bem sentir

qualquer achaque, que sintas.

Entra logo a combater-me

dos zelos a bateria,

e como Tróia o meu peito

abrasam em chamas vivas.

Considero-te lograda,

de quem és mal merecida,

falsa, no que me prometes,

ingrata a tantas carícias.

Logo torno a desculpar-te,

julgando cousas impias,

as que de ti considero,

por saber, que és compassiva.

Esta consolação traz

por saudosa companhia

uma esperanca, que tenho

para ver cedo cumprida.

E como por festa chega,

e na festa se limita,

quanto esta festa me tarda,

tanto o prazer se aniquila.

Estes dias para mim

são anos, e não são dias,

as horas parecem meses,

dos quartos não sei, que diga.

Considera tu agora

como estará, minha vida,

quem tantos contrários tem

para tantas agonias.

Quem combatido se vê

com rigor, e tirania

de esperanças dilatadas,

suspiros, ânsias, fadigas.

No mais aqui te não falo,

tudo deixo para a vista;

entretanto Deus te guarde,

Deste, que muito te estima.