A PERSUAÇÕES DE THOMAZ PINTO ESCREVE CATONA AO POETA HUMA CARTA TODA CHEYA DE AM...
Recebi as tuas regras,
meu amor, minha Antonica,
as quais, te juro, me deram
para mais penas mais vida.
Ressuscitei, quando as li
do letargo, em que me via,
mas quem vive para as penas,
morre, quando ressuscita.
Teu objeto em cada letra
contemplei por vida minha,
mostrando-me em cada termo
tua essência uma alegria.
Recebi os teus abraços,
gozei-me em tuas carícias
e por te ver, meus amores,
todo me enchi de alegrias.
Eu zeloso te falava,
tu mil zelos me pedias,
eu queixoso, e tu queixosa,
eu morto, e tu insofrida.
Nesta amante confusão,
no logro destas delícias
me vi, Tona dos meus olhos,
quando tuas regras lia.
Mas porém foram de amor
tudo aparências fingidas,
tudo sombras fabulosas,
e tudo doces mentiras.
Porque logo o desengano,
que as verdades acredita,
me fez ponderar-te ausente
na distância, onde me ficas.
Vendo então, que era sonhada
a fortuna sobredita,
comecei com meus excessos
a fazer, o que convinha.
Enternecido, e saudoso,
meus olhos lágrimas vivas
lançam, vendo-me já morto
em correntes repetidas.
Um suspiro as acompanha
pronóstico de agonias,
que publicando saudades
os mesmos astros lastima.
E como a causa tu sejas,
minha ausente, minha rica,
hão de ser dela os efeitos
por desiguais sem medida.
Os efeitos, que me causam
saudades tão repetidas,
meu afeto tos relata,
meu grande amor tos publica.
Considero-te, meu bem,
distante da minha vista,
e como vivo de ver-te,
sem ver-te não tenho vida.
Sempre está meu coração
em sobressalto, e fadigas,
porque sabe bem sentir
qualquer achaque, que sintas.
Entra logo a combater-me
dos zelos a bateria,
e como Tróia o meu peito
abrasam em chamas vivas.
Considero-te lograda,
de quem és mal merecida,
falsa, no que me prometes,
ingrata a tantas carícias.
Logo torno a desculpar-te,
julgando cousas impias,
as que de ti considero,
por saber, que és compassiva.
Esta consolação traz
por saudosa companhia
uma esperanca, que tenho
para ver cedo cumprida.
E como por festa chega,
e na festa se limita,
quanto esta festa me tarda,
tanto o prazer se aniquila.
Estes dias para mim
são anos, e não são dias,
as horas parecem meses,
dos quartos não sei, que diga.
Considera tu agora
como estará, minha vida,
quem tantos contrários tem
para tantas agonias.
Quem combatido se vê
com rigor, e tirania
de esperanças dilatadas,
suspiros, ânsias, fadigas.
No mais aqui te não falo,
tudo deixo para a vista;
entretanto Deus te guarde,
Deste, que muito te estima.