A piedade

By João da Cruz e Sousa

Ah! Mal de ti, ó Deus das Escrituras,

Se do Calvário no sinistro drama

Não houvesse sentido aquela chama

De amor que se alastrou nas almas puras.

Não! Não te fora o cálix de armaguras

Tão doloroso, tão cruel se o trama

Urdido por Judá contra quem ama

Não existisse de entre as criaturas.

Sim! inda temos um Judá — ainda

Quem ama o bem, a luz, a crença linda,

Sofre contigo, em prol da humanidade.

Ficaste, é certo, inanimado e exangue,

Morreste Deus — mas do teu belo sangue

Nasceu a branca flor da piedade.