A primavera

By Delminda Silveira de Sousa

Os vales s’enfeitam de lírios nevados,

arrelvam-se os prados de florida grama,

floresce a ramada dos velhos jambeiros,

mil cantos fagueiros a brisa derrama.

No ermo da selva desata-se a rosa,

a pomba saudosa no bosque suspira;

a brisa nos ares, envolta em perfumes

recolhe queixumes dos ecos da lira.

Sorri-lhe a crença tombando cansada

na veiga enfeitada de flóreo tapiz;

gentil borboleta na rosa se abriga

baldando a fadiga das mãos infantis.

De mil laranjeiras virentes, frondosas,

as flores cheirosas perfumam a soidão;

se meigo favônio beijá-los se atreve,

de pet’las de neve branqueja-se o chão.

E os ecos repetem nas curvas dos montes

cantigas insontes que amores traíram...

e as jovens serranas às tranças compridas

gentis “margaridas” prendendo, suspiram.

Que doce harmonia no seio da mata

aos sons da cascata se vai misturar...

— são hinos das aves que ali, na ramada,

a luz d’alvorada já foi despertar.

Que brandos murmúrios, que tristes gemidos,

dos prados floridos s’escutam também;

— são rolas que choram seus ternos amores,

talvez beija-flores beijando a cecém.

Que doce mistério de vozes sumidas

Das moutas crescidas por entre a espessura...

— São ternos segredos que a fonte suspira,

— são ecos da lira gemendo ternura.

No teto musgoso de rude casinha

saudosa andorinha cantando volveu,

e sob latadas de cândidas flores

seu ninho de amores cuidosa escondeu.

E os vales s’enfeitam de lírios nevados,

enlaçam-se os cardos aos braços da hera,

aurora mimosa nas águas se mira

e a brisa suspira: — gentil primavera!