A primavera
Os vales s’enfeitam de lírios nevados,
arrelvam-se os prados de florida grama,
floresce a ramada dos velhos jambeiros,
mil cantos fagueiros a brisa derrama.
No ermo da selva desata-se a rosa,
a pomba saudosa no bosque suspira;
a brisa nos ares, envolta em perfumes
recolhe queixumes dos ecos da lira.
Sorri-lhe a crença tombando cansada
na veiga enfeitada de flóreo tapiz;
gentil borboleta na rosa se abriga
baldando a fadiga das mãos infantis.
De mil laranjeiras virentes, frondosas,
as flores cheirosas perfumam a soidão;
se meigo favônio beijá-los se atreve,
de pet’las de neve branqueja-se o chão.
E os ecos repetem nas curvas dos montes
cantigas insontes que amores traíram...
e as jovens serranas às tranças compridas
gentis “margaridas” prendendo, suspiram.
Que doce harmonia no seio da mata
aos sons da cascata se vai misturar...
— são hinos das aves que ali, na ramada,
a luz d’alvorada já foi despertar.
Que brandos murmúrios, que tristes gemidos,
dos prados floridos s’escutam também;
— são rolas que choram seus ternos amores,
talvez beija-flores beijando a cecém.
Que doce mistério de vozes sumidas
Das moutas crescidas por entre a espessura...
— São ternos segredos que a fonte suspira,
— são ecos da lira gemendo ternura.
No teto musgoso de rude casinha
saudosa andorinha cantando volveu,
e sob latadas de cândidas flores
seu ninho de amores cuidosa escondeu.
E os vales s’enfeitam de lírios nevados,
enlaçam-se os cardos aos braços da hera,
aurora mimosa nas águas se mira
e a brisa suspira: — gentil primavera!