A PROBIDADE INCOMPATÍVEL
Ao entrar a pobreza pela porta
Pela janela foge a probidade —
Nos diz o adágio em forma de sentença!
Aqui há preconceitos, e reclama
E protesta a moral té certo ponto;
Pois, segundo o direito que ela firma,
Ha comunhão de bens em caso urgente.
Inda que outro anexim o não consigne,
Parece bem provado e quase certo
Que, se a riqueza vem pela janela,
Ausenta-se a virtude pela porta.
Isto sim, isto é fato incontestável,
Que a moral não desculpa, assaz reprova.
Um homem que se preza de ser probo,
Exatíssimo em conta de patacas,
De cruzados, tostões, e meias dobras,
Dá a Deus o que é de Deus, concede a César
O que a César se deve por direito;
E tem horror ao cheiro de azinhavre
De um só vintém que seja cobre alheio.
Assim procede enquanto seus haveres
O colocam na justa mediania.
Se por um dos estúpidos caprichos
A fortuna lhe entrega soma grossa,
Embora os meios fossem tortuosos,
Sofram lá quanto sofram na indigência
Os órfãos, a viúva despojada
Da herança que era sua, e lhe usurparam
O homem que foi tão probo, hoje na posse.
De tanto cabedal que lhe não cabe,
Fica surdo, não pode dar ouvidos
Ao clamor dos escrúpulos molestos.