À que está morta

By João da Cruz e Sousa

Morta, morta de amor e de saudade,

Separada de mim por longo espaço,

Penetraste da cova a imensidade

Sem o meu louco e derradeiro abraço.

Cedo gelaste em meio de uma estrada

Constelada d’estrelas luminosas

E no regaço e à trança perfumada

Em vez de beijos meus levaste rosas.

Não pude, longe, errante, por desertos,

Nesses ínvios atalhos vãos da vida

Mandar-te, como pássaros incertos,

Os sonhos da minh’alma condoída.

Cedo gelaste, ó carne dos meus beijos,

Por entre a podridão da terra escura...

Oh! não nascer a flor dos meus desejos

Da tua boca saborosa e pura.

Não te nascer dos olhos sedutores,

Voluptuosos, tropicais, ardentes

O bálsamo vital de tantas dores,

A saúde da fé para os descrentes.

Que lágrimas febris hei de eu, chorando,

Verter em cima dessa campa fria

Se as lágrimas em mim já vão secando

Nesta vida de trágica ironia!

Que eu, afinal, semelho-me às crianças

Cheias das verdes ilusões primeiras: —

Pois para perfumar as esperanças

Plantei no meu quintal muitas roseiras.

Que elas brotem agora, que floresçam

Para ventura dos meus pobres olhos,

Que vermelhas e brancas resplandeçam

Por sobre dores e por sobre escolhos.

Que elas perfumem todo o meu sentido

E vão, na cova onde o teu corpo existe,

Dizer que neste peito emudecido

Há o silêncio de uma dor mais triste.