A SAGACIDADE CAVILLOSA COM QUE O RELlGIOSO FR. PASCOAL FEZ PRENDER A THOMAZ PINT...
Já que entre as calamidades,
em que a fortuna me encerra,
não colho os fruitos da terra,
vos mando outras novidades:
e como nesta as verdades
têm mais que noutra amargor,
será ardil de mercador
embarcá-las além-mar,
porque a risco vão ganhar
dez por cento em seu valor.
Sucedem nesta conquista
cada dia sobre os vasos
casos, que por serem casos,
se propõem a um Moralista:
cursava um Frei Algebrista
de certa ordem sagrada
na escola de uma casada,
que lia em falsa cadeira
putaria verdadeira
por postila adulterada.
la tomar-lhe a postila
um curioso estudante
secular como um diamante
Moço honrado desta vila:
e como tinha quizila
o Frade no companheiro,
lhe grunhia o dia inteiro
ao pobre do secular,
porque lhe havia encaixar
a pena no seu tinteiro.
Não cuide, que temo agouros,
nem creia de mim, que sinta,
que me ande gastando a tinta,
mas não destripe os poedouros:
queria dar-lhe uns estouros
ao pobre do secular,
que como vinha a furtar,
e lhe convinha o sofrer,
calava só por comer,
comia só por calar.
Mas o Frade impaciente
com tão leiga sociedade
se vestiu de caridade,
e foi queixar-se ao Regente:
disse, que o Moço insolente
difamava uma casada,
e tinha a vida arriscada,
porque em certa ocasião
o Frade lhe dera ao cão,
e o cão não lhe dera nada.
O Regente, que encaminha
tudo à boa providência,
suposto que tem prudência,
contudo não adivinha,
entendeu, que a casadinha
era parenta do Frade,
não se enganou em verdade,
porque estando ela co mês,
é parenta, em que lhe pes,
do Frade em sanguinidade.
Preso enfim o secular,
porque a todos nos espante,
foi o primeiro estudante,
que prendem por estudar:
o que venho a perguntar,
é, quem foi o alcoviteiro,
deste Fradinho embusteiro,
se a prisão, se o Regedor,
ou se acaso o prendedor,
que se diz Manuel Monteiro?
O preso tudo é gritar,
que se ouve por toda a vila,
que dele tomar postila
têm todos, que argumentar:
o Frade tudo é instar,
que a culpa é muito maligna,
que à popa, ou pela bolina
deve ir numa paviola
o secular para Angola,
porque ele fique na mina.
Afirma o Preso em verdade,
que àquela escola ruim
ia aprender mau Latim,
por se querer meter frade:
e sua Paternidade
usava de ingratidão,
pois sem causa, nem razão,
a quem lhe fez o favor
de o ir desprender de amor,
o tinha posto em prisão.
Item, que sempre fugia
do Fradinho as encontradas,
pois ia em horas minguadas,
quando o Frade às cheias ia:
que sempre se lhe escondia,
por lhe ouvir, que é sua Prima
e porque ele o não oprima,
tomava em horas traidoras
as lições das outras horas,
e lhe deixava as da Prima.
Eu vos proponho os motivos
do sucesso, e seus fracassos,
porque quem ignora os casos,
não sabe os nominativos:
eu perco logo os estrivos
com estas filatarias,
pois vejo todos os dias,
que um Frade (seja quem quer)
pelo meio de as perder
assegura as putarias.
O pobre do secular,
porque o caso vá distinto,
se chama Fulano Pinto,
mas já Pinto de galar:
porém o Frade alveitar,
que eu tenho por macacão,
não entra em publicação,
por que eu perca esse regalo,
pois morro por batizá-lo,
para que morra cristão.