A SAGACIDADE CAVILLOSA COM QUE O RELlGIOSO FR. PASCOAL FEZ PRENDER A THOMAZ PINT...

By Gregório de Matos Guerra

Já que entre as calamidades,

em que a fortuna me encerra,

não colho os fruitos da terra,

vos mando outras novidades:

e como nesta as verdades

têm mais que noutra amargor,

será ardil de mercador

embarcá-las além-mar,

porque a risco vão ganhar

dez por cento em seu valor.

Sucedem nesta conquista

cada dia sobre os vasos

casos, que por serem casos,

se propõem a um Moralista:

cursava um Frei Algebrista

de certa ordem sagrada

na escola de uma casada,

que lia em falsa cadeira

putaria verdadeira

por postila adulterada.

la tomar-lhe a postila

um curioso estudante

secular como um diamante

Moço honrado desta vila:

e como tinha quizila

o Frade no companheiro,

lhe grunhia o dia inteiro

ao pobre do secular,

porque lhe havia encaixar

a pena no seu tinteiro.

Não cuide, que temo agouros,

nem creia de mim, que sinta,

que me ande gastando a tinta,

mas não destripe os poedouros:

queria dar-lhe uns estouros

ao pobre do secular,

que como vinha a furtar,

e lhe convinha o sofrer,

calava só por comer,

comia só por calar.

Mas o Frade impaciente

com tão leiga sociedade

se vestiu de caridade,

e foi queixar-se ao Regente:

disse, que o Moço insolente

difamava uma casada,

e tinha a vida arriscada,

porque em certa ocasião

o Frade lhe dera ao cão,

e o cão não lhe dera nada.

O Regente, que encaminha

tudo à boa providência,

suposto que tem prudência,

contudo não adivinha,

entendeu, que a casadinha

era parenta do Frade,

não se enganou em verdade,

porque estando ela co mês,

é parenta, em que lhe pes,

do Frade em sanguinidade.

Preso enfim o secular,

porque a todos nos espante,

foi o primeiro estudante,

que prendem por estudar:

o que venho a perguntar,

é, quem foi o alcoviteiro,

deste Fradinho embusteiro,

se a prisão, se o Regedor,

ou se acaso o prendedor,

que se diz Manuel Monteiro?

O preso tudo é gritar,

que se ouve por toda a vila,

que dele tomar postila

têm todos, que argumentar:

o Frade tudo é instar,

que a culpa é muito maligna,

que à popa, ou pela bolina

deve ir numa paviola

o secular para Angola,

porque ele fique na mina.

Afirma o Preso em verdade,

que àquela escola ruim

ia aprender mau Latim,

por se querer meter frade:

e sua Paternidade

usava de ingratidão,

pois sem causa, nem razão,

a quem lhe fez o favor

de o ir desprender de amor,

o tinha posto em prisão.

Item, que sempre fugia

do Fradinho as encontradas,

pois ia em horas minguadas,

quando o Frade às cheias ia:

que sempre se lhe escondia,

por lhe ouvir, que é sua Prima

e porque ele o não oprima,

tomava em horas traidoras

as lições das outras horas,

e lhe deixava as da Prima.

Eu vos proponho os motivos

do sucesso, e seus fracassos,

porque quem ignora os casos,

não sabe os nominativos:

eu perco logo os estrivos

com estas filatarias,

pois vejo todos os dias,

que um Frade (seja quem quer)

pelo meio de as perder

assegura as putarias.

O pobre do secular,

porque o caso vá distinto,

se chama Fulano Pinto,

mas já Pinto de galar:

porém o Frade alveitar,

que eu tenho por macacão,

não entra em publicação,

por que eu perca esse regalo,

pois morro por batizá-lo,

para que morra cristão.