A SEU FILHO O CONDE DO PRADO, DE QUEM ERA O POETA BEM VISTO, ESTANDO RETIRADO NA...

By Gregório de Matos Guerra

Daqui desta Praia grande,

Onde à cidade fugindo,

conventual das areias

entre os mariscos habito:

A vós, meu Conde do Prado,

a vós, meu Príncipe invicto,

Ilustríssimo Mecenas

de um Poeta tão indigno.

Enfermo de vossa ausência

quero curar por escrito

sentimentos, e saudades,

lágrimas, penas, suspiros.

Quero curar-me convosco,

porque é discreto aforismo,

que a causa das saudades

se empenhe para os alívios.

Ausentei-me da Cidade,

porque esse Povo maldito

me pôs em guerra com todos,

e aqui vivo em paz comigo.

Aqui os dias me não passam,

porque o tempo fugitivo,

por ver minha solidão,

pára em meio do caminho.

Graças a Deus, que não vejo

neste tão doce retiro

hipócritas embusteiros,

velhacos entremetidos.

Não me entram nesta palhoça

visitadores prolixos,

políticos enfadonhos,

cerimoniosos vadios.

Uns néscios, que não dão nada,

senão enfado infinito,

e querem tirar-me o tempo,

que me outorga Jesus Cristo.

Visita-me o lavrador

sincero, simples, e liso,

que entra co’a boca fechada,

e sai co queixo caído.

E amanhecendo Deus,

acordo, e dou de focinhos

co sol sacristão dos céus

toca aqui, toca ali signos.

Dou na varanda um passeio,

ouço cantar passarinhos

docemente, ao que eu entendo,

exceto a letra, e o tonilho.

Vou-me logo para a praia,

e vendo os alvos seixinhos,

de quem as ondas murmuram

por mui brancos, e mui limpos:

os tomo em minha desgraça

por exemplo expresso, e vivo,

pois ou por limpo, ou por branco

fui na Bahia mofino.

Queimada veja eu a terra,

onde o torpe idiotismo

chama aos entendidos néscios,

aos néscios chama entendidos.

Queimada veja eu a terra

onde em casa, e nos corrilhos

os asnos me chamam d’asno,

parece cousa de riso.

eu sei um clérigo zote

parente em grau conhecido

destes, que não sabem musa,

mau grego, e pior latino:

Famoso em cartas, e dados

mais que um ladrão de caminhos,

regatão de piaçavas,

e grande atravessa-milhos:

Ambicioso, avarento,

das próprias negras arnigo

só por fazer a gaudere,

o que aos outros custa jimbo.

Que se acaso em mim lhe falam,

torcendo logo o focinho,

ninguém me fale nesse asno,

responde com todo o siso.

Pois agora (pergunto eu)

e Job fora ainda vivo

sofrera tanto ao diabo,

como eu sofro este percito?

Também sei, que um certo Beca

o pretório presidindo,

onde é salvage em cadeira,

me pôs asno de banquinho.

Por sinal que eu respondi,

a quem me trouxe este aviso,

se fosse asno, como eu sou,

que mal fora a esse Ministro.

Eu era lá em Portugal

sábio, discreto, e entendido,

Poeta melhor, que alguns,

douto como os meus vizinhos.

Chegando a esta cidade,

logo não fui nada disto:

porque o direito entre o torto

parece, que anda torcido.

Sou um herege, um asnote,

mau cristão, pior ministro,

mal entendido entre todos,

de nenhum bem entendido.

Tudo consiste em ventura,

que eu sei de muitos delitos

mais graves que os meus alguns,

porém todos sem castigo.

Mas não consiste em ventura,

e se o disse, eu me desdigo;

pois consiste na ignorância

de Idiotas tão supinos.

De noite vou tomar fresco,

e vejo em seu epiciclo

a lua desfeita em quartos

como ladrão de caminhos.

O que passo as mais das noites,

não sei, e somente afirmo,

que a noite mais negra, escura

em claro a passo dormindo.

Faço versos mal limados

a uma Moça como um brinco,

que ontem foi alvo dos olhos,

hoje é negro dos sentidos.

Esta é a vida, que passo,

e no descanso, em que vivo,

me rio dos Reis de Espanha

em seu célebre retiro.

Se, a quem vive em solidão,

chamou beato um gentio,

espero em Deus, que hei de ser

por beato inda benquisto.

Mas aqui, e em toda a parte

estou tão oferecido

às cousas do vosso gosto,

como de vosso serviço.