À stela confidente

By Delminda Silveira de Sousa

Se a vida tem risos nos puros afetos,

se há seres diletos que gozam venturas,

se a vida tem gozos n’aurora dos anos,

pra mim teve enganos, sofrer, amarguras!

— Sorrisos, esperanças — meus sonhos mimosos,

amores ditosos da quadra gentil,

ai! foram perfumes, foi nuvem dourada

que em fria orvalhada desfez-se sutil!

Se a meiga saudade do tempo passado

meu seio magoado me quer consolar,

eu sofro um tormento d’envolto à doçura

da lágrima pura que me faz chorar!

Da palma virente dos ledos amores,

murcharam-se as flores ainda em botão;

fanadas as rosas de ternos carinhos,

que duros espinhos restaram-me então!

Só tu, meiga estrela das tardes formosas,

nas réstias mimosas de luz divinal,

me trazes sorrisos dum anjo saudoso...

relatas-me o gozo da vida imortal!

Fujamos, minh’alma, fujamos da terra

que as dores encerra do teu padecer!

Lá onde fulgura puríssima estrela,

a vida é mais bela, tem riso e prazer!