À SUA MAJESTADE NO DIA DA ACLAMAÇÃO DA RAINHA D. MARIA I.

By Nicolau Tolentino de Almeida

Das virtudes guiados

Subi ao alto trono, oh reis augustos;

Nem sempre esquivos fados

Se nos hão de mostrar surdos e injustos:

Abrem vasto tesouro,

E nos mandam por vós a idade de ouro.

Do rei aos céus erguido,

O reino e o coração tendes herdado.

Benigno, enternecido,

De mil virtudes solidas dotado;

Por gênio piedoso,

E digno enfim de tempo mais ditoso.

Da eterna Providência

Os benéficos raios fuzilaram;

Já se estima a inocência.

Já os tempos de ferro se abrandaram,

Já vem o ar talhando

A piedade e a justiça os braços dando.

Com súbita alegria

Tornai a ver os conhecidos lares,

Tornai a ver o dia.

Vós que habitastes hórridos lugares,

Lugares desumanos

Onde passastes dez, e outros dez anos.

Do chão desentranhados

Vinde jurar os novos reis felizes:

Nos pulsos descarnados

Mostrai ao povo as roxas cicatrizes,

E os grilhões inda quentes

Na praça triunfal deixai pendentes.

Que lágrimas levaste,

Pátrio Tejo, na lua escura veia

Quando turvo passaste!

E as ondas que quebravas sobre a areia,

Que cinzas que regaram!

Que triste sangue para o mar levaram!

Mas torna, oh manso Tejo,

Torna a volver corrente prateada:

Já tais males não vejo:

E até já foge a nuvem carregada,

Que à triste lusa terra

Prometia fatal e pronta guerra.

De pelouro violento

Não vê cair o exangue companheiro;

E dorme ao som do vento

Em campo aberto o mole pegureiro;

O lavrador cantando

Em paz herdados campos vai cortando.

Da sorte das batalhas

Livrai, piedosos reis, os portugueses;

Pendurem duras malhas,

E os temperados lúcidos arneses,

Os ardidos soldados

Das lagrimosas mães em vão chamados.

Que dias florescentes

Ao vosso fiel povo preparastes!

Quando com mãos prudentes

O peso dos negócios espalhastes

Sobre os ombros robustos

De ministros inteiros, sábios, justos.

Gemeu maniatado

Longo tempo o infeliz merecimento;

Mas já, o colo alçado.

Sacode o negro pó do esquecimento,

E a virtude inocente

De ilustres palmas lhe coroa a frente.

Já vingadas serão

Do vil tutor as tímidas donzelas;

Já não erguem em vão

As mãos, e os tristes olhos ás estrelas;

Nua de falsidade

Aos ouvidos dos reis chega a verdade.

Mil louvores lhe cantam,

O limpo coração pondo no rosto:

E n’alma lhe levantam

Novo trono, sobre ela melhor posto,

Que entre espessas falanges,

Que sobre ouro, ou pérolas do Ganges.

Novos reis soberanos.

Que hoje as rédeas tomais do reino vosso,

Os fastos lusitanos

Dirão de vós o que eu dizer não posso:

Vossa augusta memória

Abrirá largo campo à longa história.

Sem trabalho podeis

Fazer feliz a gente portuguesa.

Seguindo as santas leis.

Que n’alma vos gravou a natureza,

A rara humanidade

A incorrupta justiça e sã verdade.