À SUA MULHER ANTES DE CASAR.

By Gregório de Matos Guerra

Os dias se vão,

os tempos se esgotam,

para todos trotam,

só para mim não:

tanta dilação

quem há de curtir?

O tempo a não vir,

e eu por meu pesar

sempre a esperar,

o que tanto foge;

casemo-nos hoje,

que amanhã vem longe.

O tempo sagrado

vem com tal vagar,

que deve de andar

manco, ou aleijado:

eu com meu cuidado

morto por vos ver,

e o tempo a deter

a dita, que espero,

da qual eu não quero,

que ele me despoje;

casemo-nos hoje,

que amanhã vem longe.

Por uma hora mera,

que Píramo andara,

e à Fonte chegara,

onde Tisbe o espera,

nunca acontecera

colar-se de emboque

no seu mesmo estoque,

deixando uma ponta,

onde a Moça tonta

a morrer se arroje;

casemo-nos hoje,

que amanhã vem longe.

Por uma hora avara,

por um breve instante,

que Leandro amante

no mar se arrojara,

nunca se afogara,

e Eros de tão alto

não dera tal salto;

porque quis o fado,

que ela, e o afogado

a praia os aloje:

casemo-nos hoje,

que amanhã vem longe.

Hoje poderei

convosco casar,

e hoje consumar,

amanhã não sei:

porque perderei

a minha saúde,

e em um ataúde

me podem levar

o corpo a enterrar,

porque vos enoje:

casemo-nos hoje,

que amanhã vem longe.