A SUZANA AMAZIA DO AZEVEDO, MANDANDO AO AUTOR HUM PREZENTE, E NELLE VINHÃO HUM...
Susana: o que me quereis,
que me trazeis tão mimoso,
não sou homem tão baboso,
que com pouco me enganeis:
que o vosso peixe me deis,
convém que dar-mo vos deixe,
mas é razão que me queixe,
de dar-mo, por que eu vos dê,
que não sou eu homem, que
a carne vos dê por peixe.
A mim me tremia o cu
co’as moquecas, não em vão,
pois sendo da vossa mão
qualquer peixe é Baiacu:
Jesu nome de Jesu!
ide pescar às restingas,
e mandais-me petitingas?
ardo eu em tão vivas chamas
que por um molho de escamas
hei de dar as minhas pingas?
Vós bom negócio intentais,
e à fé, que bem vos convinha
ver, se por posta na espinha
com as pinhas me comprais:
crede, que o negócio errais
pois pela mesma razão,
eu fujo dessa ocasião;
porque sou um homem tal,
que metido em um rosal
colho a rosa, e a espinha não.
Se sois a Susana mesmo
de juízo acreditado,
como imitais o pecado,
com manjares de quaresma:
ao nosso Abade Ledesma
pregando na freguesia,
ouvi dizer em um dia
(e é rifão dos Mazombos)
que a carne é, que cria os lombos
e não peixe de água fria.
Mandai-me de carne um pouco
as galinhas, e as posturas,
que eu com minhas galaduras
vos porei franga de choco:
o mais é um intento louco,
em que a tontice vos dá,
pois que sois velhinha já,
e eu tenho grande jactância
de dar a minha sustância
a quem sustância me dá.
Sou amigo do Azevedo,
prezo-me de homem fiel
não lhe hei de ser infiel
por vos dar esse folguedo:
se não vos atocha o dedo,
com que vos dorme o caixeiro,
eu não tenho palmo inteiro,
e é melhor, do que eu no vício
ele ofício, por ofício,
e dinheiro por dinheiro.