A SUZANA AMAZIA DO AZEVEDO, MANDANDO AO AUTOR HUM PREZENTE, E NELLE VINHÃO HUM...

By Gregório de Matos Guerra

Susana: o que me quereis,

que me trazeis tão mimoso,

não sou homem tão baboso,

que com pouco me enganeis:

que o vosso peixe me deis,

convém que dar-mo vos deixe,

mas é razão que me queixe,

de dar-mo, por que eu vos dê,

que não sou eu homem, que

a carne vos dê por peixe.

A mim me tremia o cu

co’as moquecas, não em vão,

pois sendo da vossa mão

qualquer peixe é Baiacu:

Jesu nome de Jesu!

ide pescar às restingas,

e mandais-me petitingas?

ardo eu em tão vivas chamas

que por um molho de escamas

hei de dar as minhas pingas?

Vós bom negócio intentais,

e à fé, que bem vos convinha

ver, se por posta na espinha

com as pinhas me comprais:

crede, que o negócio errais

pois pela mesma razão,

eu fujo dessa ocasião;

porque sou um homem tal,

que metido em um rosal

colho a rosa, e a espinha não.

Se sois a Susana mesmo

de juízo acreditado,

como imitais o pecado,

com manjares de quaresma:

ao nosso Abade Ledesma

pregando na freguesia,

ouvi dizer em um dia

(e é rifão dos Mazombos)

que a carne é, que cria os lombos

e não peixe de água fria.

Mandai-me de carne um pouco

as galinhas, e as posturas,

que eu com minhas galaduras

vos porei franga de choco:

o mais é um intento louco,

em que a tontice vos dá,

pois que sois velhinha já,

e eu tenho grande jactância

de dar a minha sustância

a quem sustância me dá.

Sou amigo do Azevedo,

prezo-me de homem fiel

não lhe hei de ser infiel

por vos dar esse folguedo:

se não vos atocha o dedo,

com que vos dorme o caixeiro,

eu não tenho palmo inteiro,

e é melhor, do que eu no vício

ele ofício, por ofício,

e dinheiro por dinheiro.