À tarde

By Delminda Silveira de Sousa

Vem, vem comigo olhar o azul formoso,

agora que a tristeza é doce e meiga;

não ouves? rumoreja carinhoso

mais brando o vento a perpassar na veiga.

Oh! como é lindo o azul da imensidade

Através deste véu que se distende!

Caem lágrimas puras de saudade

de cada fina dobra que desprende!

Os bogaris de perlas rorejados

abrem cheirosos na gentil verdura;

e lá, no mar, de flóculos nevados,

abre-se um lírio em cada onda pura!

Ah! também na minh’alma abrem-se flores...

— saudades e suspiros — tantos, tantos,

que dulcificam os negros dissabores

do copioso orvalho dos meus prantos!

Porém qu’importam mágoas e delírio,

se a saudade nos é tão grata à alma?...

se em cada — ai — evola-se um martírio,

e em cada lembrança — a dor se acalma!

Vem! vem comigo olhar o azul formoso,

agora que a tristeza é doce e meiga;

vem escutar do sabiá saudoso

o terno canto no rosal da veiga!