A tempestade

By Delminda Silveira de Sousa

Tarde d’estio; mais de meio agora,

pela azul vastidão o sol caminha,

rebrilhando mar em frisas d’ouro.

O vento estivo vai de manso e manso

afrouxando, e se extingue lentamente,

como o arfar de um peito moribundo.

A calma cresce, e vai-se, pouco a pouco,

como que adormecendo a Natureza.

Silêncio faz-se, alfim; não treme a relva,

nem já pipilam meigas avezinhas:

O homem mesmo, grave e pensativo,

como que se recolhe aos seios d’alma...

— Súbito estruge no Infinito opresso,

rola o trovão, a reboar nos vales,

outra vez o relâmpago fugace

risca tortuoso o espaço escurecido.

E rebrama o trovão... após instantes

cai em torrentes fluvial tormenta.

Na imensidão do mar encapelado

oscila a nau, e pelo espaço plúmbeo,

veloz alcíone os ares atravessa.

E ruge o austro as vagas estendendo

em alvíssimos velos encrespados

que sobem pelas altas penedias

lambendo as fragas com leonino afago.

Na solidão das matas ensombradas

vergam a fronde as árvores robustas

e desprende-se o fruto e as flores caem.

Sacodem aves a plumagem branda,

e os passarinhos procurando abrigo

na espessura dos ramos se aconchegam.

Já pouco a pouco amaina a ventania...

rareia alfim a fluvial tormenta,

e, manso, manso, serenando o aspecto,

despe o Infinito o acinzentado manto,

e vai mostrando o azul que a noite veste.

Aclara-se o Oriente, a lua cheia

vem surgindo gentil de sobre o monte;

brilha da selva a mádida folhagem,

banhada do luar sereno e puro.

No quedo mar s’espelha o firmamento,

voga o batel, o marinheiro canta,

que à flor das meigas ondas, bonançosa,

brilhante faixa d’ouro a lua estende!