A tempestade
Tarde d’estio; mais de meio agora,
pela azul vastidão o sol caminha,
rebrilhando mar em frisas d’ouro.
O vento estivo vai de manso e manso
afrouxando, e se extingue lentamente,
como o arfar de um peito moribundo.
A calma cresce, e vai-se, pouco a pouco,
como que adormecendo a Natureza.
Silêncio faz-se, alfim; não treme a relva,
nem já pipilam meigas avezinhas:
O homem mesmo, grave e pensativo,
como que se recolhe aos seios d’alma...
— Súbito estruge no Infinito opresso,
rola o trovão, a reboar nos vales,
outra vez o relâmpago fugace
risca tortuoso o espaço escurecido.
E rebrama o trovão... após instantes
cai em torrentes fluvial tormenta.
Na imensidão do mar encapelado
oscila a nau, e pelo espaço plúmbeo,
veloz alcíone os ares atravessa.
E ruge o austro as vagas estendendo
em alvíssimos velos encrespados
que sobem pelas altas penedias
lambendo as fragas com leonino afago.
Na solidão das matas ensombradas
vergam a fronde as árvores robustas
e desprende-se o fruto e as flores caem.
Sacodem aves a plumagem branda,
e os passarinhos procurando abrigo
na espessura dos ramos se aconchegam.
Já pouco a pouco amaina a ventania...
rareia alfim a fluvial tormenta,
e, manso, manso, serenando o aspecto,
despe o Infinito o acinzentado manto,
e vai mostrando o azul que a noite veste.
Aclara-se o Oriente, a lua cheia
vem surgindo gentil de sobre o monte;
brilha da selva a mádida folhagem,
banhada do luar sereno e puro.
No quedo mar s’espelha o firmamento,
voga o batel, o marinheiro canta,
que à flor das meigas ondas, bonançosa,
brilhante faixa d’ouro a lua estende!