A TEMPESTADE
Conglomeradas no alto, a combinar o instante
Em que à terra darão o ataque, as nuvens pretas
Caminham pelo espaço em marcha balouçante,
Como um bando invasor que avança triunfante
Entre rolos de pó e toques de cornetas.
Brame longinquamente a voz estertorosa
Do trovão assustando a Natureza em calma.
O colibri suplica um agasalho á rosa
Que o aninha, entrefechando as pétalas, piedosa,
No casto seio como um sonho dentro da alma.
Relâmpagos febris de flâmea cauda, ariscos,
Dão punhaladas d’oiro... Em súbitos desmaios.
Num fúlvido painel de traços e de riscos,
Cobrejam pelo céu exames de coriscos,
E estoirazes bulcões vomitam fulvos raios...
Tamborilando, grosso, o temporal desaba,
Vergastando de rijo os visos da montanha;
O coqueiral sacode as palmas verdes na aba
Do monte, onde, á feição de um crânio, a terra acaba,
E onde o inverno desdobra a neblinal bretanha.
E o furacão ribomba. As folhas do arvoredo
Despencam-se bailando em vôo trepidante.
Os pombos nos casais escondem-se com medo,
Eajoelham-se a rezar as flores em segredo
Pelo espírito azul de um melro agonizante!
A floresta se estorce em convulsões de morte
Num macabro clamor de monstros enjaulados;
E os ventos que a bufar, com pulso hercúleo e forte,
Espancam dos chorões a lúrida coorte,
— São maltas de satãs malhando condenados...
A fonte musical do píncaro da serra,
Que trazia no seio um rouxinol cantando,
Borbulha, e ferve, e espuma, e corcoveia, e berra,
Impelindo, os calhaus que do álveo desenterra
Com a fúria de um corcel que foge relinchando.
Abrindo socavões, cavando algares, rugem,
Como rios de sangue, as crespas enxurradas;
Tomados de pavor, os bois no campo mugem
Quando os roucos trovões raucíssonos estrugem
Num clangor de canhão varrendo barricadas!
As choças e os palhais, no embate fragoroso,
Tombam entre um clamor de almas de mágoa cheias.
Os pinheiros senis de aspecto doloroso,
Erguendo espectralmente o galhame nodoso,
Semelham colossais espinhas de baleias...
Das enseadas deixando o bonançoso leito,
Onde a idéia tenaz de liberdade incuba,
O grande Mar, que embala as velhas naus no peito,
Com urros de montanha, em macários desfeito,
Leoninamente eriça a espumarenta juba!
Rilhando farelhões e solapando fragas,
Busca tomar de assalto os condoreiros montes:
E, uivando maldições, vociferando pragas,
Transpõe a praia e leva o assombro em suas vagas,
Num dantesco tropel de ruivos mastodontes!
Blindados Leviatãs que arfam com as brônzeas cargas
E sulcam bamboleando as vastidões supremas;
Couraçados — dragões de asas triunfais e largas, —
Tudo — o Mar, vomitando elétricas descargas,
Estrinca em suas mãos como um colar de gemas!
Destroços de galeões — maruja, velas, mastros,
Tudo no saque pilha a neptuniana tropa.
Tanto estrondo o tufão faz a correr de rastros
Como se Deus com o pé brilhante como os astros
De encontro ao Novo Mundo arremessasse a Europa!
E eu, ouvindo o estridor do vendaval, que estala,
Fico, triste, a pensar nas frágeis borboletas!
E minh’alma infeliz, que foi de Buda, exala
Um ai de compaixão dos lírios cor de opala
Que se desfolham como as ilusões dos poetas!...