A TEMPESTADE

By Gustavo de Paula Teixeira

Conglomeradas no alto, a combinar o instante

Em que à terra darão o ataque, as nuvens pretas

Caminham pelo espaço em marcha balouçante,

Como um bando invasor que avança triunfante

Entre rolos de pó e toques de cornetas.

Brame longinquamente a voz estertorosa

Do trovão assustando a Natureza em calma.

O colibri suplica um agasalho á rosa

Que o aninha, entrefechando as pétalas, piedosa,

No casto seio como um sonho dentro da alma.

Relâmpagos febris de flâmea cauda, ariscos,

Dão punhaladas d’oiro... Em súbitos desmaios.

Num fúlvido painel de traços e de riscos,

Cobrejam pelo céu exames de coriscos,

E estoirazes bulcões vomitam fulvos raios...

Tamborilando, grosso, o temporal desaba,

Vergastando de rijo os visos da montanha;

O coqueiral sacode as palmas verdes na aba

Do monte, onde, á feição de um crânio, a terra acaba,

E onde o inverno desdobra a neblinal bretanha.

E o furacão ribomba. As folhas do arvoredo

Despencam-se bailando em vôo trepidante.

Os pombos nos casais escondem-se com medo,

Eajoelham-se a rezar as flores em segredo

Pelo espírito azul de um melro agonizante!

A floresta se estorce em convulsões de morte

Num macabro clamor de monstros enjaulados;

E os ventos que a bufar, com pulso hercúleo e forte,

Espancam dos chorões a lúrida coorte,

— São maltas de satãs malhando condenados...

A fonte musical do píncaro da serra,

Que trazia no seio um rouxinol cantando,

Borbulha, e ferve, e espuma, e corcoveia, e berra,

Impelindo, os calhaus que do álveo desenterra

Com a fúria de um corcel que foge relinchando.

Abrindo socavões, cavando algares, rugem,

Como rios de sangue, as crespas enxurradas;

Tomados de pavor, os bois no campo mugem

Quando os roucos trovões raucíssonos estrugem

Num clangor de canhão varrendo barricadas!

As choças e os palhais, no embate fragoroso,

Tombam entre um clamor de almas de mágoa cheias.

Os pinheiros senis de aspecto doloroso,

Erguendo espectralmente o galhame nodoso,

Semelham colossais espinhas de baleias...

Das enseadas deixando o bonançoso leito,

Onde a idéia tenaz de liberdade incuba,

O grande Mar, que embala as velhas naus no peito,

Com urros de montanha, em macários desfeito,

Leoninamente eriça a espumarenta juba!

Rilhando farelhões e solapando fragas,

Busca tomar de assalto os condoreiros montes:

E, uivando maldições, vociferando pragas,

Transpõe a praia e leva o assombro em suas vagas,

Num dantesco tropel de ruivos mastodontes!

Blindados Leviatãs que arfam com as brônzeas cargas

E sulcam bamboleando as vastidões supremas;

Couraçados — dragões de asas triunfais e largas, —

Tudo — o Mar, vomitando elétricas descargas,

Estrinca em suas mãos como um colar de gemas!

Destroços de galeões — maruja, velas, mastros,

Tudo no saque pilha a neptuniana tropa.

Tanto estrondo o tufão faz a correr de rastros

Como se Deus com o pé brilhante como os astros

De encontro ao Novo Mundo arremessasse a Europa!

E eu, ouvindo o estridor do vendaval, que estala,

Fico, triste, a pensar nas frágeis borboletas!

E minh’alma infeliz, que foi de Buda, exala

Um ai de compaixão dos lírios cor de opala

Que se desfolham como as ilusões dos poetas!...