A TORRENTE

By Gustavo de Paula Teixeira

No pináculo do monte

Onde a tempestade rincha,

Brota escassa e tênue fonte

De sáxea frincha.

Rompe do adito da penha

Por furo aberto a capricho,

E, súbito, se despenha

Em um esguicho.

Salta e foge num arrulo

Num chão onde a relva medra,

E desce, de pulo em pulo,

De pedra em pedra.

Serpeja entre as móbeis pêndulas

Dos intrincados cipós,

E passa entre as filipêndulas

Destra e veloz.

Entre calhaus, palpitando,

Susta a carreira, escorrega,

E vai tateando... tacteando...

Como uma cega!

Logo após a argêntea fita,

Encosta abaixo, desdobra,

E, rebolando, se agita

Como uma cobra.

Pelos túneis de verdura

Tirita de luz à míngua,

E sai da garganta escura

Como uma língua...

Um periquito da serra,

Quando mais flameja o sol,

Na corrente o bico enterra

Como um anzol.

Bebe adiante um tico-tico;

No ponto em que mais borbulha

O beija-flor crava o bico

Como uma agulha.

E a equórea serpe, que vaga

Pela ravina, de rojo,

Suspira de fraga em fraga,

De fojo em fojo.

Chega ao cimo de uma rocha

Por entre palmas de avenca:

Salta, em lírios desabrocha

E se despenca...

Arrebanha afluentes níveos

— Mansas cobras de luar

Que encontra pelos declívios

A tiritar.

Engrossa tanto na viagem

Que a água de um salto não vingo:

Fora a que bebe a folhagem

De pingo em pingo.

Sérios perigos arrosta

Como um herói frio e calmo,

E conquista a longa encosta

De palmo em palmo.

Ao vale chega. Que festa!

Toda se arrufa de glória!

Foi a viagem na floresta

Uma vitória!

Detém-se ao pé de uma choça,

E, cheia de um santo amor,

Oferta uma grande poça

Ao morador.

No seio hialino, claro,

Esconde uma alma de Buda:

Até a flor sem amparo

A erguer-se ajuda.

Posto que a turvem bastante,

Não leva sombras de mágoa.

Jamais negou ao viandante

Um copo de água!

Na marcha morosa e tarda

Pisam-lhe o dorso espelhento

Os bois: inda assim, não guarda

Ressentimento.

Salvo em galeras de folhas

Tribos de insetos ruins,

E, alegre, floresce em bolhas

Que são jasmins!

Entra num campo: congraça

As borboletas de cores

Diversas e ansiosa, passa

Colhendo flores.

Aqui, ali, uma rosa,

Que em perfumes se desmancha,

Brinca nas ondas, gloriosa

Como uma lancha!

Um sinceiro de alta copa

A frouxa cauda de sombra

Em suas águas ensopa,

Rente a uma alfombra.

Nas ôndulas encrespadas,

Da pedraria entre os vãos,

As árvores debruçadas

Lavam as mãos...

Ora reflete a esmeralda

De um tuim, ora um galho arreda

E o espúmeo pendão desfralda

De queda em queda.

Dança um pouco, e estuga o passo,

De neve as margens salpica,

E lança-se, espaço a espaço,

De bica em bica.

Quando o álveo se torna estreito,

Solapa e alue os barrancos,

E espreguiça-se no leito

De seixos brancos...

E toma alento, descansa

Um só minuto, porém:

Pois cai num pendor, e avança

De novo, além!

E sem tino, atropelada,

Ladeira abaixo, tropeça,

E em desalinho, arrepiada,

Se ergue depressa.

Vista de longe, parece

Toda vestida de plumas:

Pois, cheia de flocos, desce

Suando espumas!

Galopa, agitando ao vento

A undante crina de opala.

Às vezes, no chão pedrento,

Os pés entala...

Corre, corre, sem descanço,

Riçada, trêmula, audaz,

Até que, enfim, num remanso

Encontra a paz.

Num tanque em círculo, enorme,

De face de porcelana,

Deita-se, aninha-se e dorme

Uma semana.

Meninas brancas e nuas,

De pernas jáspeas, redondas,

Se banham, sorrindo, em suas

Macias ondas.

Um ganso, que se retrata

No plácido ancoradoiro,

Quebra-lhe o espelho de prata

Com os remos d’oiro...

Mas, findo o sono, fremindo,

De novo põe-se a viajar

De passo em passo, seguindo

Rumo ao mar...