A TREZ MULATOS QUE POR TIRAREM AS ESPADAS CONTRA HUNS DESEMBARGADORES FORAM A ENFORCAR ATANAZADOS, E ESQUARTEJADOS.

By Gregório de Matos Guerra

Jogaram a espadilha

três canzarrões co’a Justiça,

e como o demo as enguiça,

iam sempre à cascarrilha:

não achavam na cartilha

carta de jeito, ou feitio

para trunfarem com brio,

ante jogo tão nefando,

que um quarto de hora jogando

perderam seis mãos a fio.

Não sendo de perder fartos

para o seu total destroço

perdido o dinheiro grosso,

perderam também os quartos:

mas depois de azares artos,

virão os três pescadores,

que a Justiça destra em flores

em jogando com maraus

sempre ganha com três paus

os maiores matadores.

Ao tempo, que os três sentiram,

que o tal jogo os embarranca,

todos se viram sem branca,

mas sem alva não se viram:

do jogo se despediram

sentido do espalhafato,

mas tão nus do esfola-gato,

que de pura compaixão

lhes vestiu a Relação

uma fralda de barato.

Tanto ali se entristeceram,

e tanto se trespassaram,

que a todos nos admiraram,

quando assim se suspenderam:

finalmente os três morreram

uma morte tão veloz,

que ao veneno mais atroz

nenhuns tão presto acabaram,

como estes, quando cheiraram

as entrepernas do algoz.

Jogar sobre mesa rasa

com seis Desembargadores,

isso não, que aos matadores

nunca deixam fazer vaza:

se aos treze escaldou a brasa,

aos mais sirva de exemplar,

e quando queiram jogar,

joguem, mais ao truque não,

que os três paus da Relação

sempre é carta de ganhar.

Com becas qualquer joguilho

sempre é mui prejudicial,

pois com jogo tal, ou qual

sempre levam de codilho:

têm cartas de garrotilho,

porque têm cartas de agarro,

e os que imaginam, que é barro

jogar com Ministro inteiro,

se esperam rodar dinheiro,

hão de rodar sobre um carro.

Vós, que na cidade vistes

tantos quartos, e tão artos,

entendei, que tão maus quartos

resultam de horas mui tristes:

e os que de vê-los fugistes,

crede, que a hora não tarda,

a quem a má sorte aguarda,

antes deveis de entender,

que a toda a casa há de arder,

a quem seus quartos não guarda.

Alerta Pardos do trato,

a quem a soberba emborca,

que pode ser hoje forca,

o que foi ontem mulato:

alerta que o aparato

daquele pendente pé,

que na parede se vê,

vos prega com voz sincera,

que se sois, o que ele era,

podeis ser, o que ele é.