A UM AMIGO, LOUVANDO-LHE O ESTADO DE CASADO

By Nicolau Tolentino de Almeida

Foi este o ditoso dia,

Que te deu a esposa bela;

Doce, solida alegria.

Para ti, junto com ela,

No mesmo berço nascia:

Por tua maior ventura,

Natureza lhe quis pôr.

Entre os dons da formosura,

Outro dote inda maior,

Que é, alma inocente e pura:

Eu sei teu costume antigo,

A mulher, que é só formosa,

Não vale tudo contigo;

Soubeste escolher esposa.

Em quem tens esposa e amigo:

Quer sempre ter um senhor

Nosso humano coração;

E na ventura maior

Inda sente em si um vão,

Que só enche o casto amor:

De quantos males te eximes,

Dando ao teu tão bom senhor!

Danosas paixões reprimes;

Recebes das mãos do amor

Os prazeres, sem os crimes:

Cega mocidade errada,

À conjugal união

Quis chamar vida cansada;

Diz que é triste escravidão.

De mil pensões carregada:

Chama à paz um dissabor;

Diz, que de susto e desdéns

Se alimenta o deus de amor;

E que a certeza dos bens

Lhes diminui o valor:

Fecham olhos à verdade,

Caminhando após seus erros;

E em falsa tranquilidade,

Ao som de pesados ferros,

Vão cantando liberdade:

Mil remorsos na alma estão,

Que inda que o rosto os sufoca.

Roendo as entranhas vão;

Que imporia riso na boca.

Se ha punhais no coração?

Amor é fogo sublime,

Que nas almas se acendeu;

Às outras paixões reprime;

Ele e dádiva do céu,

O abuso é que o faz ser crime:

Beija, amigo, os teus grilhões;

Um para o outro eram feitos

Os vossos bons corações;

Crava em vossos ternos peitos

Santo amor os seus farpões.

Onde achas pessoa estranha,

Que não contrafaça o rosto.

Porque vê, que assim te ganha?

Quem é que na pena, ou gosto.

Com verdade te acompanha?

Contas teus casos sem medo

A quem por amigo passa;

Fiaste-te em rosto ledo;

Foste no meio da praça

Assoalhar teu segredo:

Mal os homens conheceu

Pura amizade enganada,

O santo rosto escondeu,

E tornou-se envergonhada

Para o céu, d’onde desceu;

O amigo que te rodeia,

Veste das tuas paixões;

Com elas te lisonjeia;

São raros os corações,

Em que doa dor alheia:

Quando acertares de ler,

Que houve entre homens união,

O escritor a quis fazer;

Não os pintou como são,

Mas como deviam ser:

São cousas imaginadas

Dos Nizos o amor profundo;

São fabulas bem contadas;

Ou os não houve no mundo.

Ou não deixaram pegadas:

Puro amor, limpa verdade,

Só entre esposos estão;

Desce a eles a amizade;

Traz-lhes co’a santa união

Uma só alma e vontade:

Comunica à esposa amada

Teus mais internos cuidados;

E vive em paz descansada

A vida dos bem casados.

Vida bem-aventurada;

Sem receio de perigo

Dorme sono saboroso;

Que não tens junto contigo

Lisonjeiro suspeitoso,

Traidor, com rosto de amigo:

Tens por doce companhia

Aquela que o justo céu

Com mil virtudes te envia;

Tu és o cuidado seu,

E como seu, te vigia:

Goza em sossego profundo

Tão pura felicidade;

Tens um tesouro fecundo;

Tens amor, tens amizade.

Tens todos os bens do mundo.

E se ha entre homens desvelo

(Cousa que aqui contradigo)

Conta com um, que é singelo;

E foi sempre teu amigo,

Quanto os homens podem sê-lo.