A UM CAMARISTA - SOBRE OS CARTEIROS DE ENXARA
Numa infeliz madrugada,
Antes que o sol esclareça,
Metido em pobre caleça,
Pus peito, senhor, à estrada:
Saí em hora minguada,
Pois negra traição me espera;
Homens, com gênios de fera,
Me atacaram sem motivo;
Por milagre fiquei vivo,
E devo pesar-me a cera.
Vi revoltosos carreiros
Com duro aguilhão armados;
Vi nuvens de paus alçados
Pelos cumes dos outeiros:
Roldão, e o bravo Oliveiros,
Que alta pena heróis declara,
Talvez voltassem a cara
Que a tantos tremer fazia,
Se nos campos da Turquia
Vissem carreiros da Enxara.
Vi os campos inundados
De gentes vagas e incertas;
Vi as estradas cobertas
De cacheiras, e cajados:
Não valem rogos nem brados,
Não valem ligeiras pernas:
A raiva e o deus das tavernas
Acendeu tanto os campinos,
Que cuidei que os meus meninos
Teriam ferias eternas.
Enquanto no duro chão
Meu companheiro arquejava,
Eu muito humilde esperava
Também a minha ração;
Bem me lembrou que esta ação
Deslustrava a minha glória;
Mas não pretende vitória,
Nem sabe mover espada
Mão, há anos, costumada
A dar só com palmatória.
Entre mortais agonias,
Da bruta gente escapando.
Me fui na sege encaixando,
Maldizendo as romarias;
Praguejei meus negros dias,
Dias de pranto e de dor;
Conheci então, senhor,
Que só me dão meus destinos,
Ou carreiros, ou meninos,
Que Deus sabe o que é pior.
Mas a perda da vitória
Sirva de abrandar meus fados;
Dêem-vos motivo os cajados
De falar na palmatória;
Saiba o príncipe esta história;
Contai-lh’a com viva cor;
Fazei com que, em meu favor,
Sentindo afetos diversos,
Lhe motivem riso os versos,
E lhe faca dó o autor.