A UM CAMARISTA - SOBRE OS CARTEIROS DE ENXARA

By Nicolau Tolentino de Almeida

Numa infeliz madrugada,

Antes que o sol esclareça,

Metido em pobre caleça,

Pus peito, senhor, à estrada:

Saí em hora minguada,

Pois negra traição me espera;

Homens, com gênios de fera,

Me atacaram sem motivo;

Por milagre fiquei vivo,

E devo pesar-me a cera.

Vi revoltosos carreiros

Com duro aguilhão armados;

Vi nuvens de paus alçados

Pelos cumes dos outeiros:

Roldão, e o bravo Oliveiros,

Que alta pena heróis declara,

Talvez voltassem a cara

Que a tantos tremer fazia,

Se nos campos da Turquia

Vissem carreiros da Enxara.

Vi os campos inundados

De gentes vagas e incertas;

Vi as estradas cobertas

De cacheiras, e cajados:

Não valem rogos nem brados,

Não valem ligeiras pernas:

A raiva e o deus das tavernas

Acendeu tanto os campinos,

Que cuidei que os meus meninos

Teriam ferias eternas.

Enquanto no duro chão

Meu companheiro arquejava,

Eu muito humilde esperava

Também a minha ração;

Bem me lembrou que esta ação

Deslustrava a minha glória;

Mas não pretende vitória,

Nem sabe mover espada

Mão, há anos, costumada

A dar só com palmatória.

Entre mortais agonias,

Da bruta gente escapando.

Me fui na sege encaixando,

Maldizendo as romarias;

Praguejei meus negros dias,

Dias de pranto e de dor;

Conheci então, senhor,

Que só me dão meus destinos,

Ou carreiros, ou meninos,

Que Deus sabe o que é pior.

Mas a perda da vitória

Sirva de abrandar meus fados;

Dêem-vos motivo os cajados

De falar na palmatória;

Saiba o príncipe esta história;

Contai-lh’a com viva cor;

Fazei com que, em meu favor,

Sentindo afetos diversos,

Lhe motivem riso os versos,

E lhe faca dó o autor.