A UM CAMARISTA, TENDO O AUTOR SIDO DESPACHADO

By Nicolau Tolentino de Almeida

A rara benignidade.

Que quis o céu conceder-vos,

Permitia que de escrever-vos,

Tome eu hoje a liberdade;

Pois tendes tanta bondade,

Peço, n’ela confiado,

Que por mim ajoelhado,

E na boca o coração.

Beijeis ao príncipe a mão,

E lhe deis este recado:

Dizei, pois, a sua alteza,

Que eu, seu humilde afilhado,

Por ele ha pouco arrancado

D’entre os braços da pobreza.

Na simples, mas farta mesa.

Entre os irmãos e os parentes.

Aos céus, com votos ardentes,

Pedimos que, em paga justa.

Prosperem a mão augusta,

Que nos faz viver contentes.

Que os enroupados sobrinhos,

Afrontando o vento frio,

Vem todos mostrar ao tio

Os seus novos josezinhos;

Que então lhes conto, e aos visinhos,

Por quem a roupa foi dada;

Que mão, nunca assas louvada.

Mão real, piedosa, e justa,

Me pôs livre a rua Augusta,

Por vários crimes vedada;

Que um tendeiro, que os seus bens

Me fiava dando arrancos,

Veio em barrete e tamancos

Dar-me logo os parabéns;

Espera que os meus vinténs

O façam também feliz;

Porque, segundo ele diz.

Há de haver na sua tenda

Mais saída na fazenda,

E menos gasto no giz.

Mas eu um crime cometo,

Quando de ensinar-vos trato;

Quis ser ao príncipe grato,

Mas fui convosco indiscreto;

Homem, como vós, discreto

Não precisa formulário;

A égua do seminário”

Me deve os rompões cravar,

Por eu querer ensinar

O padre-nosso ao vigário.