A UM CAMARISTA, TENDO O AUTOR SIDO DESPACHADO
A rara benignidade.
Que quis o céu conceder-vos,
Permitia que de escrever-vos,
Tome eu hoje a liberdade;
Pois tendes tanta bondade,
Peço, n’ela confiado,
Que por mim ajoelhado,
E na boca o coração.
Beijeis ao príncipe a mão,
E lhe deis este recado:
Dizei, pois, a sua alteza,
Que eu, seu humilde afilhado,
Por ele ha pouco arrancado
D’entre os braços da pobreza.
Na simples, mas farta mesa.
Entre os irmãos e os parentes.
Aos céus, com votos ardentes,
Pedimos que, em paga justa.
Prosperem a mão augusta,
Que nos faz viver contentes.
Que os enroupados sobrinhos,
Afrontando o vento frio,
Vem todos mostrar ao tio
Os seus novos josezinhos;
Que então lhes conto, e aos visinhos,
Por quem a roupa foi dada;
Que mão, nunca assas louvada.
Mão real, piedosa, e justa,
Me pôs livre a rua Augusta,
Por vários crimes vedada;
Que um tendeiro, que os seus bens
Me fiava dando arrancos,
Veio em barrete e tamancos
Dar-me logo os parabéns;
Espera que os meus vinténs
O façam também feliz;
Porque, segundo ele diz.
Há de haver na sua tenda
Mais saída na fazenda,
E menos gasto no giz.
Mas eu um crime cometo,
Quando de ensinar-vos trato;
Quis ser ao príncipe grato,
Mas fui convosco indiscreto;
Homem, como vós, discreto
Não precisa formulário;
A égua do seminário”
Me deve os rompões cravar,
Por eu querer ensinar
O padre-nosso ao vigário.