A UM LEIGO QUE ERA VESTO E QUE NUNCA TEVE FASTIO; A QUEM POR ACASO TOCOU NA CABE...

By Nicolau Tolentino de Almeida

Feriu sacrílega espada,

Alçada por mão traidora.

Cabeça que sempre fora

Té aos barbeiros vedada:

Dentre a grenha profanada

Corre o sangue à terra dura;

Tosquiou-se a matadura;

E o casco rebelde a ordens.

Precisou d’estas desordens

Para ter prima tonsura.

Feroz soldado imprudente,

Que nova espada esgrimiu,

Foi o ímpio que feriu

Esta vítima inocente:

A quem do golpe insolente

O motivo lhe procura.

Diz que fez compra segura;

Pois duvidoso na escolha,

Quis ver que tal era a folha,

Cortando por cousa dura.

Homem de tenção danada,

Só tu conseguiste o fim

De entrar o teu espadim

Aonde não entra nada:

Da repentina estocada

Cai o padre desmaiado;

Mas quando recuperado

A ti os olhos volveu,

Sabes o que te valeu?

Foi teres já almoçado.

Todo o mundo te pragueja.

Porque em detestável guerra

Ias deitando por terra

Esta coluna da igreja;

Mas se triunfasse a inveja,

E o padre morresse então,

Dize, ó ímpio coração,

Que tanto em furor te atiças,

Quem ajudaria ás missas?

Quem tocaria ao sermão?

Quem nos daria a certeza

De haver outro homem sisudo,

Que pudesse comer tudo

Quanto se puser na mesa?

Da próvida natureza

Quem havia as leis seguir?

Observante em digerir,

Qual outro havia saber

Depois de acordar, comer,

Depois de comer, dormir?

Que importa, ó cruel soldado,

Para desculpar teu erro,

Ter sido o teu ímpio ferro

Já pela pátria arrancado?

Que importa que em campo armado

Junto a se Lipe te veja?

Que importa que o mundo seja

Das tuas ações o abono,

Se a mão que defende o trono,

Ataca depois a igreja?

E tu, que segues os trilhos,

Que São Francisco te fez,

E pões os teus gordos pés

Sobre os seus santos ladrilhos;

Pois que a seus devotos filhos

Guarda no céu largas pagas,

Nos olhos é bem que o tragas,

E de modelo não mudes;

E pois não é nas virtudes,

Que o seja ao menos nas chagas.