A UM PADRE EM RÉPLICA ÀS DÉCIMAS COM QUE RESPONDEU À ANTECEDENTE

By Nicolau Tolentino de Almeida

Que venham fuscos garraios

Meter em versos a mão!

Potente Jove, aonde estão

Os teus vingadores raios?

Um homem de couros baios

Segue as musas tuas filhas;

Tu, pois, que os vaidosos trilhas,

Faze que este, em todo o caso.

Saia logo do Parnaso,

E passe para Cacilhas.

Se em retórico exercício

Já soubeste regras dar,

Também eu posso falar,

Porque sou do mesmo ofício:

Que o teu cérebro tem vicio,

É verdade assas notória;

Na poesia e na oratória

Vás em total decadência;

Colega, tem paciência,

Hás de vir à palmatória.

No teu escuro papel,

Aos bons ouvidos ingrato,

Achei um vivo retrato

Da confusão de Babel:

Á pátria língua infiel

És da nação o desdouro;

Bem sei que te chego ao couro;

Mas não merece passagem,

Que a batina e a linguagem

Ajuntem clérigo e mouro,

A quem me queria arguir,

Mostro, padre, o tal papel;

É testemunha fiel,

Não me deixará mentir:

Em novos termos urdir

Metes a todos num canto;

Que usas palavras de encanto

Assentam gentes machuchas,

Boas para ajuntar bruxas.

Ou para tirar quebranto.

Deixei-me, pois, de critério,

E tomei melhor caminho;

Meu amigo, a um louquinho

É loucura falar serio;

Chova, pois, o vitupério

Sobre esse tostado couro;

Saia o tal cardeal mouro.

Que o capinha, alvoroçado,

Vai, por ordem do senado,

Meter garrochas no touro.

Fula escrava americana

Já mandava à luz do dia

Um crioulo, que seria

Nódoa da cúria romana;

Carregado de banana,

Porque no caminho coma,

O rumo da Europa toma;

E em terra, marchando à pata,

Com saco e folha de lata,

Deu a sua entrada em Roma.

Assim mesmo estropeado,

E envolvido em grosso pano.

Foi entre o povo romano

Com mil respeitos tratado:

Do vento e do sol queimado,

Semblante quebrado e aflito,

Tem tal dom na cara escrito,

Que grilavam de redor,

Uns, que é o rei Belchior,

Outros, que é São Benedito.

Tomou a benção papal;

E leve tanto poder,

Que sem o papa o saber.

Ficou feito cardeal:

Voltou para Portugal

Já cardeal protetor;

Achou cá pouco lavor;

E zombam-lhe do capelo,

Por ter mui crespo o cabelo,

E ser muito baça a cor.

Erra o vulgo os passos seus;

É um cego e maldizente;

A cor é mero acidente,

Todos são filhos de Deus.

Porém para os lucros teus

O capelo te faz mal;

No São João e Natal

Terias gorda guedelha,

Armado de faca velha,

Pincel e pote de cal.

Padre, vai-te o mundo ao pelo;

E co’a língua maldizente

Te vai cortando igualmente

As poesias e o capelo;

Porem eu que sou singelo,

E meus contrários ameigo,

Te afirmo piedoso e meigo,

Que se não tens por teu mal,

Em Roma o de cardeal,

Tens no Parnaso o de leigo.

Deves voltar outra vez,

E dizem que nisso falias;

Mas pegam-se pelas salas

Teus moles, tardios pés.

Se ajuda de custo vês,

Fazes-te coxo, e ronceiro;

Meu padre, és muito matreiro,

Já todos estão de acordo;

E sem te verem a bordo.

Não pões a mão no dinheiro.

Tua saúde se estraga.

Mas teu medico condeno;

Meu amigo, o teu veneno

Não se cura com triaga;

Para a tua antiga chaga

Medicina imprópria é esta;

Muda, pois vês que não presta;

Grita c’os olhos em brasa,

Que te fechem numa casa,

E que te sangrem na testa.

Debalde em Lisboa gritas,

Atestando a Itália inteira.

Que regeste uma cadeira

Nos claustros dos jesuítas;

As obras que vejo escritas

Provam que nos tens mentido;

Até das ordens duvido,

Quando as tem cabeças tontas;

Tu, cá pelas minhas contas,

És um mulato fugido.

Foge outra voz, se tal és,

Qual foge apupado mono;

Antes que venha teu dono,

E te ponha nas galés;

Antes que enfeite léus pés

Legal, sonoro fuzil;

Não veja o pátrio Brasil,

Que os ombros do filho belo,

Vindo buscar um capelo,

Só acharam um barril.

Dizem todos, que és tingido,

Que ninguém louco te chame;

Por mais que eu lhe jure e clame.

Que és mesmo doudo varrido;

Dizem que estás conhecido,

E que o fazes por estudo;

Em tal caso pronto acudo,

E de outro lado te ataco;

Se não és doudo, és velhaco,

E talvez que sejas tudo.

Mas já quem pode me ordena,

Que armas ponhamos em terra;

Após sanguinosa guerra.

Alce a frente a paz serena;

Sobre essa pele morena

Em paz teu capelo ajusta;

Assento que é cousa justa

Seguires método novo,

E não dares gosto ao povo.

Que quer rir à tua custa.

Não te finge falso agrado

Meu semblante contrafeito;

Não encobre honrado peito

Coração refalseado;

Se me julgas disfarçado

Alta injustiça me fazes;

Eu te juro eternas pazes;

E se falto aos votos meus,

Ah padre, permitia Deus

Que eu sempre ensine rapazes.

E tu, que sem estes sustos

Vives cheio de alegrias,

Serenos, dourados dias.

Aos pés de teus reis augustos;

Tu, que por títulos justos

Te chamas o novo Horácio,

Quando entrares em palácio

Conserva de mim lembranças,

Porque tenho as esperanças

Postas em ti, e no Estado.