A UMA DAMA QUE EM BONS VERSOS PEDIU AO AUTOR A SATÍRA DO VELHO

By Nicolau Tolentino de Almeida

Senhora, o quadro pedido

Não estava retocado,

Mas brevemente o remeto;

Deixai isso ao meu cuidado:

Mostra os erros da velhice;

Põe alguns velhos à rasa;

Custou-me pouco a pintura,

Por ter as tintas de casa:

Que já um amigo o viu.

Eu, senhora, vos confesso,

Porém mostrei-lho inda em calva

Como eu também lhe apareço:

Vós sois de mais cerimônia,

E pesais com mais rigor;

Temi, que sem rir c’os versos,

Só vos vissem rir do autor:

Tomo outra vez o pincel,

Vou-lhe pôr atenta mão;

Abençoarei meu trabalho,

Se lhe derdes proteção:

Pois que a deve o sangue ilustre,

Tem dois direitos meu caso;

Porque a peço a uma fidalga,

Que o é também no Parnaso:

De tão alto voto espero,

Que geral favor me traga

A uns versos, que antes de lidos

Tiveram tamanha paga.

Ao favor de m’os pedirdes,

Honra, que eu não merecia,

Ajuntastes o tesouro

De m’os pedir em poesia:

Que fáceis, que amenos versos!

Trazem das musas o bafo;

A moral os faz ser vossos.

Que quanto ao mais são de Safo:

Só na pintura dos anos

Errou essa mestra mão,

Porque inda que era em poesia,

Foi puxar muito a ficção;

A doce, igual harmonia,

A imaginação fogosa,

Depuseram contra vós,

E vos chamam mentirosa.

Se oculto, físico acaso

Branqueou uns tios de ouro,

Vosso vingador Apolo

Os cobre de mirto, e louro;

Quem marcha ao lado das Graças,

Não sabe o que é fria idade;

Deixai-me dizer a mim

Essa funesta verdade;

É em mim que o voraz tempo

Já empolgou a mão forte;

Se inda me mexo em poesia,

É já co’a anciã da morte;

Cedo raivosos credores,

A quem não curei as chagas,

Darão a meus frios ossos,

Em lugar de pranto, pragas;

E outros, a que a carapuça

Mesmo, sem mira, não erra,

Dirão com gosto ao coveiro

“Enche-lhe a boca de terra.”

Mas tudo perdoarão

Minhas sepultadas cãs,

Se de cipreste as cobrirdes

Vós, e as vossas oito irmãs.