A UMA DESPEDIDA

By Tomás Antônio Gonzaga

Chegou-se o dia mais triste

que o dia da morte feia;

caí do trono, Dirceia,

do trono dos braços teus,

Ah! não posso, não, não posso

Dizer-te, meu bem, adeus!

Ímpio Fado, que não pôde

os doces laços quebrar-me,

por vingança quer levar-me

distante dos olhos teus.

Ah! não posso, não, não posso

Dizer-te, meu bem, adeus!

Parto, enfim, e vou sem ver-te,

que neste fatal instante

há de ser o teu semblante

mui funesto aos olhos meus.

Ah! não posso, não, não posso

Dizer-te, meu bem, adeus!

E crês, Dirceia, que devem

ver meus olhos penduradas

tristes lágrimas salgadas

correrem dos olhos teus?

Ah! não posso, não, não posso

Dizer-te, meu bem, adeus!

De teus olhos engraçados,

que puderam, piedosos,

de tristes em venturosos

converter os dias meus?

Ah! não posso, não, não posso

Dizer-te, meu bem, adeus!

Desses teus olhos divinos,

que, terno e sossegados,

enchem de flores os prados

enchem de luzes os céus?

Ah! não posso, não, não posso

Dizer-te, meu bem, adeus!

Destes teus olhos, enfim,

que domam tigres valentes,

que nem rígidas serpentes

resistem aos tiros seus?

Ah! não posso, não, não posso

Dizer-te, meu bem, adeus!

Da maneira que seriam

em não ver-te criminosos,

enquanto foram ditosos,

agora seriam réus.

Ah! não posso, não, não posso

Dizer-te, meu bem, adeus!

Parto, enfim, Dirceia bela,

rasgando os ares cinzentos;

virão nas asas dos ventos

buscar-te os suspiros meus.

Ah! não posso, não, não posso

Dizer-te, meu bem, adeus!

Talvez, Dirceia adorada,

que os duros fados me neguem

a glória de que eles cheguem

aos ternos ouvidos teus.

Ah! não posso, não, não posso

Dizer-te, meu bem, adeus!

Mas se ditosos chegarem,

pois os solto a teu respeito,

dá-lhes abrigo no peito,

junta-os c’os suspiros teus.

Ah! não posso, não, não posso

Dizer-te, meu bem, adeus!

E quando tornar a ver-te,

ajuntando rosto a rosto,

entre os que dermos de gosto,

restitui-me então os meus.

Ah! não posso, não, não posso

Dizer-te, meu bem, adeus!