A UMA DOR DE DENTES, DE QUE SUA ESPOSA SE QUEIXAVA TODAVIA DESDENHOSA.

By Gregório de Matos Guerra

Ai, Lise, quanto me pesa,

que da dor, que padeceis,

a ter não vos isenteis

mais piedade, que fereza:

se deste achaque a braveza

entre ambos reparte amor,

tenho por grande favor,

que nesta amante convença

eu sinta a dor da doença,

vós a doença da dor.

Por razões mui aparentes

devo este mal estimar,

porque sei me há de livrar

de trazerdes-me entre dentes:

mas por causas mais urgentes

quero, que o remedieis,

e se quando o mal venceis,

a morder-me vos provoca,

perdôo o morder de boca

à boca, com que mordeis.