A UMA INGRATA

By Nicolau Tolentino de Almeida

No sacro templo,

Que amor habita,

Minha alma aflita

Fui imolar.

Na ruiva flama,

Que silva ardendo,

A mão detendo

Jurei-te amar.

Fumoso sangue,

Mal findo o voto,

Do peito rolo

Vi gotejar,

D’alma oprimida

A insana pena

Causou-lhe Helena

Que soube amar.

Nos fidos peitos

O morto lume

Negro ciúme

Ia ateiar.

Vulcano fero

Ante Mavorte

O rival forte

Não pôde olhar.

Dos desprezados,

Que sofrem tanto,

O rouco pranto

Feria o ar.

Aqui jaz Delio

Terno, e vencido,

Sem de Cupido

Premio alcançar:

De Dafne esquiva,

Com triste agouro.

Em verde louro

Viu transformar.

Pan segue a ninfa,

Que tanto adora;

Seu fado chora

Vendo-a mudar.

De tenras canas

Amor lhe manda,

Que a frauta branda

Vá fabricar.

Cercada Dido

De angústias feias,

Ah falso Enéias!

Se ouve bradar.

Seus lindos olhos

Frouxos erravam;

Em vão buscavam

O vago mar.

Subtis enredos

De acerbo dano,

Bifronte engano

Eu vi tramai’.

Por Tisbe bela,

Que busca errante,

Piramo amante

Vai acabar.

Conhece a amada

O infeliz erro,

Ousa Ímpio ferro

Em si cravar.

Serve-lhe a terra

De duro leito,

Vê-se-lhe o peito

Inda arquejar:

As pardas sombras

Que amor mistura,

Na Estige escura

Vão aportar:

Desenrugando

A crespa fronte

Ledo Aqueronte

As foi buscar.

E eu combatido

De mil pesares

Vou pelos ares

A suspirar.

Sei ser-te amante,

Sem prêmios vivo,

Este o motivo

Do meu penar.

Vês mil exemplos,

E jamais pensas

Que pode ofensas

Amor vingar.

Ah! sê piedosa:

As cruas penas

Torne serenas

Teu brando olhar.