A UMA POETA QUE PRETENDIA QUE A OBSEQUIASSEM

By Nicolau Tolentino de Almeida

Domingas, debalde queres,

Nesse canto da cozinha,

Vencer a invencível teima

Da rebelde carapinha:

Em vão te arrepia a frente,

De que zomba o deus de amor,

Alvo coto de pomada.

Furtado do toucador:

Debalde tufado laço

De atadeira fita inglesa

Te assombra a leveda popa,

Riçada por natureza.

Debalde alteias as ancas,

Esguias, e enganadoras;

Co’as velhas algibeirinhas,

Que vão deixando as senhoras:

Amor, fingindo dotar-te,

Te pôs, com traidora mão,

Junto dos dentes de neve,

Faces tintas de carvão.

Inda que ancião pesado.

Desprezo teus vãos intentos;

Debaixo de murchas cãs

Nutro altivos pensamentos:

Vejo a quebrada madeixa

Já tornada em gelo frio;

Tudo o tempo me levou,

Mas não me levou o brio.

Debaixo da zona ardente

Jurar-te-ia amor e fé;

Mas não tem culto na Europa

As deidades de Guiné:

Se ás vezes te ponho os olhos.

Não é de amor sinal certo;

São desejos de levar-te

Á casa de João Alberto.

A engomada casaquinha

Te descobre novas faltas;

Para outro corpo foi feita,

Dizem-no as feições mais altas.

Já noutros pés teus sapatos

Sofreram do tempo o açoite;

Cansada, fendida seda,

Mostra dedos cor da noite.

E pois que a amor queres dar-te,

Eu te aponto um chafariz,

Onde aches dignos amantes

Assentados em barris:

Acharás o pai Francisco,

Homem a bulhas contrário,

Já duas vezes juiz

Na irmandade do Rosário:

Acharás o forro Antônio,

Que o tabaco e vinho enjoa;

E tem nos calmosos junhos

Caiado meia Lisboa:

Verás esbelto crioilo,

Dado ao vento o peito nu,

Levantando airosos saltos

No manejo do bambu;

Que ávidos cães enxotando,

Tem, com braço arregaçado,

Nas ermas praias do Tejo

Cem cavalos esfolado.

Nestes, vaidosa Domingas,

Assenta bem teu amor;

Chovam setas de léus olhos

Em peitos da lua cor:

Vai da janela da escada

Acolher, com doce agrado,

Os suspiros que te enviam,

Ao som do londum chorado;

E deixa de atormentar-me

Com luas loucas ideias;

Também sinto dores próprias,

E escuto pouco as alheias.

Sim, Domingas, nós marchamos

Na mesma infeliz estrada;

E do amor, que eu te não pago,

Assaz estás bem vingada:

Tu puseste em mim teus olhos,

E eu fui pôr em Márcia os meus;

Que me paga mil extremos,

Assim como eu pago os teus:

Márcia, que em alçando os olhos,

Mil setas n’esta alma crava;

E em cuja casa tu tens

A dita de ser escrava:

Tens-me a mim por companheiro:

Temos o mesmo senhor;

Tu, por casos da fortuna,

Eu, por castigo de amor:

E pois que eu não posso amar-lo,

Seguirás melhor esteira,

Se de meus ternos suspiros

Quiseres ser mensageira:

Em vendo que ela está só,

Vai-lhe expor a paixão minha;

Eu peço a amor, que entretanto

Tome conta na cozinha:

Amor lavará léus pratos,

E escumará a panela,

Enquanto tu a seus pés

Dizes, que eu morro por ela:

Teus grossos, trombudos beiços,

Lhe vão expor meus cuidados;

Hão de ser melhor ouvidos,

Que sendo por mim contados:

Pinta-lhe as lágrimas tristes

Em que meu rosto se lava;

Por um infeliz cativo,

Peça uma ditosa escrava:

Dize-lhe, que não se assuste

De meu cabelo nevado;

Jura-Ihe que não são anos,

Mas penas, que me tem dado:

Que a cansa das minhas rugas

E o seu desabrimento;

E vai da minha velhice

Fazer-me um merecimento.

Ah Domingas, se em seu peito

Me fazes achar piedade,

Também eu juro fazer

A tua felicidade:

E pois que o teu coração

Somente é baixo, e grosseiro,

Em preferir liberdade

A tão feliz cativeiro;

Por amor serei mesquinho;

Meus gastos verás cortar;

Para ajuntar-te quantia

Com que te possas forrar:

Cheia de teus benefícios

Minha mão agradecida

Te irá pôr em larga praça

Rendoso modo de vida;

E assentada em novo estr’ado,

De fasquiada madeira,

Ondeando ao som do vento

Tremulo teto de esteira,

Teus negros, airosos braços,

Chocalhando um assador,

Encherão famintos peitos

De castanhas, e de amor:

Terás bojudas tigelas

Sobre incendidos tições.

Onde fervam em cardumes

Saborosos mexilhões:

Teus doces, sonoros ecos,

Sem mentir, apregoarão

O azeite de Santarém,

O cravo do Maranhão.

Domingas, segue este rumo;

Que teu amor reloucado,

Sem te fazer venturosa,

Me deixa a mim desgraçado;

E se sem dó dos meus ais,

Teimas nos projetos teus,

Paliando nos teus amores.

Em vez de falar nos meus;

Trocando boa amizade

Por entranhado rancor,

Vou descobrir teus intentos

A teu austero senhor;

Que em zelo honroso inflamado,

Sem ser preciso atiçá-lo,

Vai a casa do Lagoia

Trocar-te por um cavalo.