A UNS OLHOS

By Nicolau Tolentino de Almeida

Us teus vencedores olhos,

Que honra à natureza dão,

São a obra mais perfeita,

Que saiu da sua mão.

Caem chuveiros de setas

Sobre mil adoradores,

Quando alçam as pestanas

Teus olhos encantadores.

Seu olhar modesto e brando,

Sua grave formosura,

Ainda em peitos de bronze

Inspiraria ternura.

Mas da ingrata natureza

Desiguais as obras são;

Que importa dar-te bons olhos

Se te deu mau coração?

Zombando de ternos ais,

A teus pés vês derramar

Puras lágrimas ardentes.

Que não queres enxugar.

Márcia ingrata, ouve os meus votos,

Cede uma vez à razão;

O mal que fazem teus olhos

Pague-m’o o teu coração.

Mas falo a surdos ouvidos;

A natureza severa,

A quem deu olhos d’um anjo,

Deu o peito d’uma fera.