A VIDA QUE TEM UM PRESO É COMER DA CARIDADE BEBER ÁGUA D’UMA BILHA E PEDIR ESMOL...
Roto, nu, dormir no chão,
Sofrer do ferro o trambolho.
Coçar, matar seu piolho,
Sem lenço assoar-se à mão,
Ouvir d’aquele a razão.
Que anda em soltá-lo aceso,
E chorar da culpa ileso
Do despacho a desventura,
É esta triste figura
A vida que tem um preso.
Finalmente a toda a hora
Em um continuo gemido,
Com o sujo braço estendido
Sempre pela grade fora:
“Oh minha nobre senhora.
Queira ler de mim piedade”,
Depois de gritar à grade,
O que faz sem ter discórdia.
Mal que vem a misericórdia
É comer da caridade.
Mal que chegou a panela
Á grade cresce o sussurro,
E em dura guerra de murro
Vai embutindo a tigela:
Dão-lhe a ração, pega n’ela,
Que é feijão, couve, ou ervilha:
Mal que na barriga a pilha,
Sem se alimpar, besuntado
Vai assim mesmo engasgado
Beber água d’uma bilha.
Depois vai a descansar
Lá para o seu aposento,
Pois já tem conhecimento
Do caminho, que ha de andar:
Conversa, põe-se a jogar.
Mente, faltando à verdade,
Chora não ter liberdade,
Passa o tempo de cadeia
A sofrer a fome feia,
E pedir esmola à grade.