A VIDA QUE TEM UM PRESO É COMER DA CARIDADE BEBER ÁGUA D’UMA BILHA E PEDIR ESMOL...

By Nicolau Tolentino de Almeida

Roto, nu, dormir no chão,

Sofrer do ferro o trambolho.

Coçar, matar seu piolho,

Sem lenço assoar-se à mão,

Ouvir d’aquele a razão.

Que anda em soltá-lo aceso,

E chorar da culpa ileso

Do despacho a desventura,

É esta triste figura

A vida que tem um preso.

Finalmente a toda a hora

Em um continuo gemido,

Com o sujo braço estendido

Sempre pela grade fora:

“Oh minha nobre senhora.

Queira ler de mim piedade”,

Depois de gritar à grade,

O que faz sem ter discórdia.

Mal que vem a misericórdia

É comer da caridade.

Mal que chegou a panela

Á grade cresce o sussurro,

E em dura guerra de murro

Vai embutindo a tigela:

Dão-lhe a ração, pega n’ela,

Que é feijão, couve, ou ervilha:

Mal que na barriga a pilha,

Sem se alimpar, besuntado

Vai assim mesmo engasgado

Beber água d’uma bilha.

Depois vai a descansar

Lá para o seu aposento,

Pois já tem conhecimento

Do caminho, que ha de andar:

Conversa, põe-se a jogar.

Mente, faltando à verdade,

Chora não ter liberdade,

Passa o tempo de cadeia

A sofrer a fome feia,

E pedir esmola à grade.